Os Advogados do Diabo

        Desidério era um espírito megalomaníaco, que mesmo após cruzar a fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos, continuou sofrendo de um infeliz transtorno psicológico, no qual ele continuava a ter suas ilusões de grandeza, de poder e de superioridade...

     Assim que ele chegou ao Umbral, uma espécie de Purgatório onde as almas precisavam passar por alguns sofrimentos para conseguir a purificação, Desidério não se conformava com aquilo. Pois onde já se viu, ele ali junto com toda aquela “gentalha”, sendo que em vida fora um renomado advogado, bem colocado na sociedade e devidamente formado em uma universidade particular conceituada. Tentou então conseguir algumas informações com os demais espíritos, até chegar ao mais corrupto deles, onde conseguiu criar uma certa amizade com Robério, trocando várias afinidades e experiências profissionais de seus passados.

      Robério alegou para Desidério que caso ele quisesse uma esfera de primeira classe, o mesmo teria que deixar por escrito uma procuração em seu nome, pois quando a presença do mesmo fosse solicitada a comparecer na diretoria do Umbral, ele então seria legalmente o seu representante. Robério claro, fora também em vida um ótimo advogado, aliás um dos melhores e convenceu facilmente Desidério que além de assinar a procuração, também deixou como garantia na averbação, a estadia definitiva de todos os seus parentes ainda vivos, ou seja, comprometendo-os após a morte, a residir ali no Umbral para sempre, caso Desidério não voltasse na data de vencimento estipulada naquele contrato.

      Na verdade, Robério era uma espécie de demônio prematuro ainda, que estava infiltrado no Umbral para conseguir enganar o maior número possível de almas perdidas e assim conseguir uma futura promoção de seu posto nas esferas espirituais inferiores. E para ele ser promovido, faltava enganar apenas mais uma alma. Mas Desidério no fundo era muito esperto e na troca de conversas acabou roubando a atenção de Robério e deixando de assinar algumas folhas naqueles documentos.

       Minutos depois Desidério consegue uma autorização para sair dali e acaba surgindo em um outro local, bem luxuoso, sofisticado e com muitas opções de lazer. O único problema ali era quando aquele ambiente sofria uma espécie de batida policial, ou melhor, uma geral dada pelas autoridades locais. Se por ventura a documentação de algumas almas estivesse em desacordo com a legislação vigente, as mesmas seriam imediatamente conduzidas para o crematório público, sem piedade alguma e sem o direito de defesa. 

      O tempo passou depressa naquela dimensão prazerosa e Desidério ao ficar sabendo que haveria uma nova batida naquele local, resolveu então procurar os seus documentos, porém, os mesmos não estavam mais com ele, ou foram roubados ou ficaram indevidamente retidos na esfera de Robério. Para chamar a atenção sobre a sua pessoa prepotente, Desidério novamente reclama daquele lugar, exigindo o mais rápido possível uma esfera melhor para a sua acomodação. Logo em seguida ele é conduzido para falar com a chefia.

      Chegando na sala da autoridade superior daquele local, Desidério não acredita no que vê. Robério havia sido promovido e agora era o chefe daquela esfera. Ele então pede para ver os documentos de Desidério que de mãos vazias não tem absolutamente nada para se identificar e esclarecer a sua estadia ali, naquela dimensão luxuosa.

      - Levem ele imediatamente para o crematório público ! – ordenou Robério.

     - Mas eu lhe deixei algumas garantias, reveja todos os documentos ! – respondeu Desidério.

      Ao rever os documentos que faziam parte daquele sistema esférico, Robério notou que não existia a assinatura de Desidério nas principais cláusulas e pelas regras sobrenaturais daquela dimensão, os dois voltaram imediatamente  para a esfera anterior de onde estavam  antes. Agora ambos compartilhavam a mesma cela espiritual e eram obrigados ainda a trabalharem juntos durante um bom tempo no departamento de processos do Fórum daquele Umbral. Afinal de contas, como já contradizia o velho ditado diabólico: “ Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de prisão... ”

( texto aguardando revisão )

Sátira é uma técnica literária ou artística que ridiculariza um determinado tema. 
O adjetivo satírico refere-se ao autor da sátira. ( Wikipédia )

                              



4 comentários:

  1. Gostei do texto André, muito bem escrito...continue sempre. Bjs

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  2. Valeu Marli ! Obrigado mais uma vez !
    Bjs...

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  3. Muito bom, André! Gostei dos advogados, que nem depois de passarem para o outro lado deixam de querer enganar os outros...kkkkkkk
    Beijo!

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  4. Rosane,
    A corrupção está em todos os lugares e com certeza sempre existirá Desidérios e Robérios... rs.rs.rs
    Bjs

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