Gisékio e a Caneta Wicca



Existem certas histórias sobrenaturais que nós, escritores de ficção, jamais deveríamos escrever ou contar para alguém.  Nós, que temos o dom da escrita, de certa forma fomos presenteados com uma “chave especial” e com ela podemos abrir um portal dimensional para o outro mundo, ao qual podemos ir e voltar, pois temos passe livre. Porém, durante a abertura desse portal, nas nossas idas e vindas, podemos sim, trazer acidentalmente algumas coisas estranhas. Contudo, somente alguns, que possuem o sistema sensorial mais evoluído, conseguem observar algumas evidências e decodificá-las.

Às vezes, com o poder da nossa imaginação, também podemos criar uma história e, misteriosamente, essa história ser vivenciada por um personagem real. Seja por motivo de amizade, admiração, amor ou, em alguns momentos, até mesmo de contrariedade. Em outras épocas isso talvez fosse considerado bruxaria ou magia negra. Mas, em tempos atuais, eu chamaria isso de mera coincidência. Afinal de contas, bruxas, vampiros, lobisomens e demônios não existem, não é mesmo?

Essa história, que vou contar agora, foi enviada para mim por uma pessoa anônima, que relatou ser um escritor, talvez, paranormal. Vou chamá-lo de Gisékio.

Gisékio tinha apenas 10 anos quando perdeu sua mãe. Foi um trauma muito grande em sua vida. Sua irmã, Rosalba, ainda bem moça, mas com inúmeros sonhos a realizar, viu tudo se desmanchar feito castelo de areia. Ela estava, agora, incumbida de cuidar da casa, do pai, Antunes e de Gisékio, o irmão caçula.

Rosalba, não aceitando aquele fardo pesado, começou a judiar do seu irmão. Negava a ele o direito de brincar, atribuía inúmeras tarefas domésticas para ele fazer e às vezes o espancava. Ela sempre dizia que estava no lugar da mãe e que a educação dele era sua responsabilidade, já que o pai trabalhava o dia todo para pôr o que comer dentro de casa.

Gisékio foi guardando muita mágoa de sua irmã. O garoto era muito inteligente e tinha certo dom para escrever. Porém, suas belas poesias, escritas nas folhas de um velho caderno, eram rasgadas e jogadas fora pela irmã, em seus “chiliques” de limpeza.

Certo dia, por perder a hora de se levantar para ir à escola, levou uma surra dolorida de Rosalba. Ela não parava mais de bater no garoto com um velho cinto de couro. Bateu tanto, mas tanto, que uma vizinha precisou interferir. Gisékio, todo ensanguentado, foi levado às pressas dali para a casa de dona Nenê. Lá chegando, o garoto recebeu todos os cuidados e implorou para que dona Nenê não contasse nada daquilo ao pai, pois sua situação poderia piorar no futuro. Imagina se sua irmã Rosalba resolvesse fugir de casa... com quem ele ficaria? E os estudos? Deixar a escola, para ele, era o mesmo que deixar de viver. Dona Nenê compreendeu as razões de seu pedido e resolveu se calar, mas lhe presenteou com um poderoso amuleto. Deu a ele uma caneta bem antiga, de pena, para que ele imaginasse e escrevesse outros destinos para as coisas, quando precisasse exteriorizar seus sentimentos de mágoa. Isso talvez pudesse lhe trazer um pouco de paz interior. Mas, ela o alertou:

– Tome cuidado com isso, Gisékio. Escreva somente coisas boas, pois é uma caneta mágica! Só não vou lhe dar a tinta, porque ela virá de seu interior... mas, isso você terá que descobrir sozinho...

Gisékio não entendeu muito bem, mas guardou aquela caneta dentro do seu colchão de palha. Ninguém sabia, mas dona Nenê era uma poderosa seguidora Wicca de uma crença politeísta. Digamos que era uma bruxa do bem, para não entrar em detalhes.

Pouco tempo depois, o garoto apanhou novamente de sua irmã e acabou sendo ferido no mesmo machucado anterior, que acabou sangrando novamente. Em seu quarto, muito chateado, Gisékio conseguiu coletar em um tubinho uma pequena quantidade de seu sangue amargurado e colocou-a no frasquinho de tinta. Para tentar se sentir melhor ou até mesmo se vingar da irmã, ele começou a escrever uma pequena estrofe, usando aquela “tinta” rubra da caneta que ele havia ganhado.

“ Rosalba, Rosalbinha
minha irmã irada
seus cabelos vão cair
e todos vão dar risada ”

Gisékio, naquele momento de raiva, conseguiu mentalizar sua irmã sem cabelos e escreveu esse destino para ela. Naquela mesma noite, quando sua irmã saiu do chuveiro alguns gritos foram ouvidos. Conforme Rosalba enxugava sua cabeça, na toalha de banho iam ficando todos os seus fios de cabelo. Por motivos desconhecidos, naquela cabeça nunca mais nasceu cabelo. Todas as pessoas, ao se depararem com o novo visual de Rosalba, davam muitas risadas. Afinal de contas, ela era uma pessoa má e seus vizinhos sabiam disso.

Gisékio então compreendeu o verdadeiro poder daquela caneta mágica. Viu seu desejo, escrito com seu sangue amargurado se concretizar, no entanto, teve que pagar um alto preço por aquilo. Ao entrar na adolescência, do mesmo modo que os cabelos de sua irmã desapareceram subitamente, Gisékio também contraiu um feitiço misterioso. A sua barba crescia, diariamente, cinco vezes mais rápido que a de qualquer outro garoto normal. Ele procurou secretamente a dona Nenê, mas ela já havia se mudado de lá há alguns anos.

O tempo passou e Gisékio cresceu. Tornou-se um excelente escritor e pesquisador do sobrenatural. Conforme me disse em seu relato, aquela caneta ele guarda até hoje, pois, às vezes, é necessário mudar alguns destinos. Porém, tudo precisa ser muito bem analisado antes, pois tudo que aqui se faz aqui também se paga.

A magia existe, mas, facilmente, conseguimos manchá-la com a tinta do nosso egoísmo...
                             
Revisado por:  Elabora Textos


6 comentários:

  1. Olá, grande André!
    Esta é mais uma história maravilhosa contada brilhantemente.
    Sua narrativa e sua linguagem são tão boas que dá verossimilhança a qualquer história.
    Da forma que se deu o epílogo, também fica a impressão de veracidade.

    Parabéns pela virtuosidade!

    Abraços!

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  2. Obrigado pelo comentário Bento !
    Mas com ou sem caneta Wicca, as vezes nos metemos em cada fria, não é mesmo ? (rs.rs.rs)
    Se escrever o nosso próprio destino já foge do nosso controle, imagina escrever o destino dos outros ???
    Um grande abraço meu amigo !

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  3. Legal esse tipo de narrativa. Como histórias passadas pra frente, tal qual lendas arrepiantes contadas em volta de uma fogueira, numa noite sem luar. Deixa no leitor uma estranha sensação de dúvida, sobre o fato contado ser ou não real.

    Gostei do versinho e da parte sobre a barba dele crescer cinco vezes mais rápido que o normal. Bem sinistro../

    Pelo final da história, vê-se que ele usou/usará a caneta que altera destinos, com bom senso. Mas, imagina algo assim em mãos vingativas?

    Ótimo conto, André..
    Abraços/!

    http://contosdarosa.blogspot.com

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  4. Rosa,
    Obrigado pela visita e pelos comentários !
    Realmente o versinho é bem "bruxoso" rs.rs.rs
    Mas acredite, isso foi verdade...
    Bjs

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  5. Eu simplesmente adoro o teu jeito de escrever e contar essas histórias de arrepiar como se fossem reais.
    Mais uma vez, parabéns!!
    Um grande beijo!
    Rosane

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  6. Rosane,
    Muito obrigado pelo seus dizeres !
    Eles enobrecem a minha alma ! Bjs...

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