Xerife Necromônius e a Rebelião dos Mortos...

        Essa história foi contada para mim por um coveiro, que já havia falecido há muitos anos. Eu o conheci numa visita ao cemitério, no Dia de Finados. Ele insistiu em me contar isso, pois fazia parte de sua história e, como era muito apegado ao seu ofício, resolveu ficar por aqui mesmo e continuar ajudando os novos moradores. Acredite se quiser, mas tenho acesso ao outro lado...

Necromônius era o xerife daquele grande cemitério. Não demorou muito tempo para ele dominar aquele território todo, impondo muito medo naquela população carcerária e cadavérica. Assim, conseguira o respeito de todos os mortos e também a quantidade de votos necessária para continuar exercendo a autoridade no seu posto. Coitado daquele prisioneiro que não votasse nele nas eleições. Necromônius tinha muitos informantes e, por isso, sabia muito bem dos votos de todos. Na verdade, ele era um espírito sombrio que ao cair da noite assumia a sua forma física, ou melhor, cadavérica. Ele trazia várias correntes enroladas pelo corpo, usava um grande chapéu cowboy, botas reforçadas e algumas armas penduradas no cinturão. Fumava o tempo todo um charuto caribenho, pois seus vícios terrestres ainda permaneciam em sua mente maligna. Dentro de suas velhas roupas rasgadas, uma carcaça podre e bichenta ainda dava forma ao seu ser. Além de tudo isso, ele tinha sempre ao seu lado os espíritos de dois cães pit bulls assassinos, que corriam atrás dos que tentavam fugir ou que ultrapassavam o limite máximo permitido, próximo do portão principal.

Seus prisioneiros nada mais eram do que aquelas almas que não obtiveram credenciais para cruzarem o túnel de luz. Eram, agora, moradores daquele cemitério. A maioria deles havia cometido crimes contra a vida humana ou animal. Uns mataram e outros feriram cruelmente as leis da carne. Agora, tinham que pagar suas dívidas ali, em suas celas. Cada um sofria as dores de sua própria decomposição. A pena era cruel: seus restos mortais eram devorados impiedosamente, fazendo-os sofrer aos poucos, até serem engolidos completamente pela misteriosa e insaciável fome da terra.

Contudo, ainda havia alguns corajosos, que sabiam da existência de uma brecha: Toda vez que a exumação de um corpo era feita, normalmente por questões judiciais, esse prisioneiro tinha a chance de escapar das garras do xerife. Mas, para isso, ele precisava voltar sem a sua cabeça, ou melhor, sem a sua consciência.

E, naquela semana, a cidade dos mortos havia recebido sete novos prisioneiros. Eles eram, na verdade, sete integrantes de uma quadrilha composta por quatorze bandidos, todos assassinos perigosos. Foram traídos por seus melhores amigos e mortos com um tiro na testa enquanto dormiam, após um grande assalto a um banco central.  Pelas características do crime, deixaram para a polícia algumas pistas daquela grande quadrilha.

Agora, todos aqueles sete corpos pertenciam à jurisdição do xerife Necromônius que, aliás, os recebeu “muito bem”.  Logo na primeira noite torturou-os com sua criação de minhocas vorazes e seus amigos tatus, que rasgavam os corpos novos daqueles que eram enterrados ali, naquelas celas provisórias, ou melhor, naquelas covas especiais, que pertencem ao Estado.

Poucos meses depois os demais bandidos foram encontrados e presos. Ao confessarem os crimes cometidos contra os seus amigos, a Justiça pediu a exumação dos corpos para que a Perícia pudesse analisar. Mas, era final de outubro, o último dia daquele mês. Então, a exumação foi marcada para o mês seguinte.

Como aquela quadrilha era muito rica e já tinha informações de onde estavam enterrados os corpos, seus familiares receberam uma ordem urgente para desenterrá-los e decapitá-los. Deveriam retirar as cabeças daquele local e sumirem com elas para sempre. Isso, provavelmente, dificultaria as investigações e evitaria um agravo em suas sentenças, já que, sem aquelas cabeças, os crimes não poderiam ser-lhes atribuídos. Essa ordem deveria ser cumprida o mais rápido possível, no máximo naqueles próximos dois dias. Porém, devido a alguns problemas, demoraram um pouco mais do que o previsto para executá-la.

Ao aproximar-se da meia-noite, o cemitério foi invadido por pessoas ligadas àquela quadrilha que, ao acharem as covas, começaram as escavações. O barulho das escavações foi, aos poucos, acordando todos os mortos prisioneiros, inclusive o xerife Necromônius. Uma providência deveria ser tomada.

        – Ora, ora, mas que dia mais propício para essa intervenção! – disse o xerife.

Estava iniciando a madrugada do dia 2 de novembro, ou melhor, o “Dia de Finados”. Nesse dia, especialmente, alguns poderes eram concedidos àqueles mortos pelas forças do mal, principalmente ali, em solo cadavérico. O xerife e seus comparsas, juntamente com os cães famintos, se posicionaram estrategicamente nos quatro cantos daquele cemitério. Uma ordem foi passada para todos os prisioneiros mortos: 

“Atenção prisioneiros: jamais deixem essas cabeças saírem daqui, do meu cemitério”

Mas, enquanto isso, aquelas covas eram todas abertas e cada cadáver era decapitado. Todas as cabeças foram colocadas dentro de sacos. Estando, já, prontos para irem embora, um assovio alto foi ouvido.

– Aonde vocês pensam que vão? – era o xerife falando. Ele e todos os mortos ali presentes estavam materializados nas suas formas cadavéricas.

Começou, então, uma grande correria dentro daquele cemitério. Os invasores tentavam fugir com os sacos que continham aquelas cabeças em suas costas. Entretanto, para todo lado que olhavam existia um morto-vivo esperando para enfrentá-los, mas, tinham deixado as suas facas e ferramentas amaldiçoadas próximo daquelas covas abertas.

Naquela confusão toda, um plano de fuga muito antigo foi colocado em prática por alguns mortos prisioneiros e passado rapidamente para os demais. Somente por estarem naquele dia especial e, usando aquelas ferramentas, eles puderam se decapitar e jogar suas cabeças para o lado de fora do cemitério, no mundo dos vivos, onde a jurisdição do xerife Necromônius não tinha efeito algum.

Enquanto o xerife e seus cães corriam atrás dos invasores, inúmeros prisioneiros puderam se libertar daquela terrível prisão, jogando seus crânios para fora daquele recinto. No dia seguinte o cemitério foi interditado, pois, misteriosamente, cento e oitenta crânios foram encontrados do lado de fora, embora somente sete covas encontravam-se violadas.

O padre foi chamado para tomar conhecimento do caso e ungiu todos os crânios com água benta, além de celebrar, naquela mesma manhã, uma santa missa em intenção de suas almas.

Aqueles crânios foram levados para um laboratório específico e, misteriosamente, sumiram de lá naquela mesma noite. O xerife não se conformava com a fuga, pois acabou perdendo cento e oitenta prisioneiros. No entanto, não deixou escapar com vida os invasores nem aquelas sete cabeças condenadas. Orgulhoso, vive dizendo a todos os demais prisioneiros que mais vale algumas cabeças cheias de carne que cento e oitenta cabeças vazias. Afinal de contas, suas minhocas vorazes somente procriam de barriga cheia, alimentadas por boas porções de consciência pesada...

                              

Revisado por:  Elabora Textos

12 comentários:

  1. Adorei o seu texto. Muito bom. Quando vi a imagem, me lembrei do filme A Casa do Espanto que passava várias vezes na tv. Saudade daquele filme e dos personagens. Abraços!

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  2. É verdade Denis, eu também assistia isso !
    Estou com um projeto em mente e esse texto faz parte dele, pois abre inúmeras possibilidades...
    Valeu meu amigo, obrigado pela visita e pelo comentário ! Abração.

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  3. Mais um conto de excelênte qualidade e caracterizado pela narrativa misteriosa do André! Estamos precisando de um cara como o Xerife Necromônius por aqui para prender alguns politicos e torturá-los com as minhocas vorazes!!! Muito intrigante essa parte dos bandidos traidores... Aliás, o texto todo é muito intrigante... Parabéns pelo seu talento venerável amigo, André!!!

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  4. Saudações amigo Júnior ! Fico muito contente também com a sua presença por aqui. Fique tranquilo, pois esses políticos terão o que merecem. Necromônius está aguardando ansiosamente por eles... rs.rs.rs
    Um grande abraço meu caro amigo e obrigado mais uma vez pela sua visita !

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  5. Oi André, como sempre seu conto é surpreendente, o Dennis citou um filme legal e eu tb assisti um que tinha um xerife morto, só que foi Os Espiritos com Michael J. Fox, é um filme intrigante tb. Adorei muito passar por aqui.
    Bjus
    Claudia

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  6. Cláudia Valery, estamos na semana do Halloween e esse tipo de conto consegue mexer muito com a nossa imaginação... Obrigado por passar por aqui e ainda comentar ! Bjs

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  7. Oi André, como sempre nos presenteando com textos de grande qualidade! Parabéns e siga sempre escrevendo. beijinhos

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  8. Obrigado pelo comentário Marli !
    Com certeza continuarei escrevendo !
    Bjs

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  9. Olá estimado André Victtor,

    Como está? E Juliana?
    Os seus textos são longos, mas eu não perco uma linha. Os quero compreender bem.
    Afinal, são quase sempre fenómenos, que presenciou, e isso me dá a garantia da veracidade.
    Todos se enquadram no dia das bruxas e dos bruxos.
    Verdadeiras assombrações, espíritos e maldições.
    Alguns, deveriam passar por situações semelhantes, àquelas, que nos narra, nos seus contos (Que Deus me desculpe, porque sou Católica). Foi, apenas, um desabafo.

    Beijos afectuosos de luz.

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  10. Olá Luz, por aqui estamos todos bem sim, graças a Deus e você ? (espero que sim também)...
    * Entendi o que disse, principalmente alguns políticos né ? (rs.rs.rs)
    Bjs

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  11. Caraca, que historia boa,nunca vi algo tao sobrenatural e bom assim

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  12. Valeu Urahara Kenpachi Jr.!
    O Xerife pediu para agradecer a sua visita aqui no Blog!
    Seja sempre bem-vindo e obrigado pelo comentário!

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