O Sétimo Dia...

       Beep... Beep... Beep... Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeep... Acordei com o barulho do monitor de sinais vitais. Eu estava dentro de um quarto de hospital, cheio de aparelhagens, praticamente numa Unidade de Terapia Intensiva. Ao meu redor havia um médico e algumas enfermeiras. Ele acabara de fazer várias tentativas de ressuscitação cardíaca. Estava até suando, pelo tanto de esforço empenhado. Uma enfermeira saiu de perto e foi comunicar o fato à recepcionista. O médico guardou o desfibrilador, retirou as luvas e saiu para preencher meu atestado de óbito. Minutos depois me colocaram numa maca, cobriram meu corpo com um lençol e levaram-me até o necrotério local. Fecharam a porta e fiquei ali, esperando que alguém viesse me buscar.


Mas eu não posso morrer ainda – pensei. Tentei me levantar e não consegui. Tentei mexer alguns dedos da mão, mas minha tentativa foi completamente inútil. Gritar também não adiantava, pois não conseguia nem sequer desgrudar os meus lábios. Mas que engraçado... Como posso estar enxergando se meus olhos estão fechados? Estou ouvindo tudo que se passa ao meu redor e vendo tudo em minha frente, só não posso me mexer nem falar. Será que realmente morri ou eles estão enganados? Não pode ser... Tive vontade de chorar...

E se realmente eu estiver morto? O que vai ser de minha família? Minha esposa? Meus filhos? Minha casa? Meu trabalho? Meus cachorros? Comecei, então, a chorar feito criança, um choro tão triste e tão solitário que me fazia sentir mais vivo do que nunca.

Um filme começou a passar em minha mente... Ali eu me vi ainda criança, sentado nos ombros de meu pai, comendo algodão doce e segurando um cata-vento. Pelo jeito, era um desfile de 7 de setembro de um ano qualquer. Depois, me vi ganhando minha primeira bicicleta como presente de Natal. Sentia-me tão feliz, tão poderoso... Logo em seguida eu estava dentro do caminhão do meu pai, que era motorista naquela época e me levava  em suas viagens para Belo Horizonte (MG). Podia até mesmo ouvir as músicas que tocavam no rádio, naquela época.

Vi o dia em que ganhei um kit de cowboy, que continha um chapéu, um cinturão com muitas espoletas e um pequeno revólver de brinquedo. Agora era minha mãe que abotoava minha camisa e amarrava os cadarços do meu sapato, me preparando para ir à escola. Pude me ver, ainda, cantando parabéns nas minhas festinhas de aniversário. Que tempo bom! – pensei. Agora, adolescente, ali estava eu, levando algumas broncas por ter chegado tarde. Depois pude me ver em várias cenas: os locais onde trabalhei, comprando minha segunda bicicleta, a primeira moto, meu primeiro carro e o primeiro computador. Que filme rápido! – pensei. Estava junto da minha turma de amigos, logo depois já estava namorando, em várias noites nas baladas e, de repente, já no altar da igreja. Era o dia do meu casamento. Pude até mesmo sentir o cheiro do perfume da minha noiva e observar os convidados. Logo em seguida vi as cenas do batismo do meu filho, eu e minha família na praia, cenas do meu cachorro correndo, do nascimento de minha filha e da construção de minha casa. Revivi o dia em que mudamos para essa nova casa. Quantas festas que fizemos lá...  Pude ver as várias viagens que realizei; as amizades passageiras e até as “trilhas” de moto das quais participei. Também assisti cenas ruins e, até mesmo, coisas que não posso citar. 

Agora, ali estava eu, completamente só e sem poder fazer nada para mudar aquela situação. Queria sim, poder reverter muitas coisas, poder perdoar muitas pessoas e também ser perdoado por elas. Mas, não havia mais tempo para isso. O que foi feito, foi feito. Meu tempo acabara.

De repente, chega um agente funerário e vai me colocando de qualquer jeito dentro de um caixão.

– Vá com calma, seu mal-educado! – tentei falar firmemente, mesmo sabendo que ele não poderia me ouvir.

Na funerária, ele me vestiu com um terno que usei muito pouco em vida. Confesso que fiquei bonito, só não gostei mesmo foi do cheiro e daquelas flores em volta. 

Agora eu já estava no velório... Meu Deus, eles estão chegando! Vi minha família se aproximar do caixão. Eles estavam chorando e eu também chorei muito com eles. A sensação de não sentir as lágrimas era péssima, eu me sentia tão sufocado que podia até mesmo me ver suspirando, embora meu tórax nem se mexesse.

Chegou, enfim, a hora de me levarem dali.

– Fiquem com Deus...  – tentei dizer, assim que minha esposa e meus filhos me beijaram. Fecharam, então, a tampa do caixão. Estava muito calor. Acho que eu ainda não havia me desprendido totalmente das sensações terrenas. Talvez isso levasse ainda alguns dias para acontecer – concluí.

Mas, eu já não ouvia ninguém ali do meu lado. Sentia apenas que estavam me levando e logo percebi que havia chegado ao destino final. As horas se passavam e nada de diferente acontecia. Pela sensação térmica que eu ainda podia sentir, percebi que já havia chegado a noite.

Passei a sentir um frio intenso, vindo dos pés e espalhando-se por todo o corpo. Meus braços e pernas estavam completamente enrijecidos e, dentro de minha barriga, coisas estranhas aconteciam o tempo todo. Comecei, então, no silêncio daquela solidão, a entender o pavor da morte.

– Jesus Cristo! Cadê você? – gritei o mais alto que pude. Gritei novamente, por várias vezes, mas absolutamente nada de diferente acontecia. E, cansado, adormeci. Dormi tanto, mas tanto, que parecia até que já havia se passado uma semana. Acordei de repente, com vontade de beber café. Porém, minha língua estava diferente, tinha um gosto amargo, parecendo ferrugem.

Muito descansado e sem nada que pudesse fazer, comecei então a pensar como deveria descrever a "Poesia da Morte". Não digo em relação à alma, pois eu sentia que ela ainda estava ali, do mesmo jeito que sempre esteve, mas sim em relação ao corpo físico. 

Morrer... Deixar-se engolir pela terra... Ser dissolvido pelo tempo... Regredir à condição de alimento dos micro-organismos vivos... Fazer parte daquele recinto no cemitério... Entrar na composição das plantas e árvores que ali cresciam... Conhecer todos esses mistérios e transformações.... Enfim, esquecer totalmente dos vícios humanos e talvez até mesmo me orgulhar de ter avançado para outro nível, voltando ao estado líquido, gasoso... Talvez regressando, em breve, ao ciclo dos minerais, vegetais e novamente ao reino animal.

Um grande barulho de pedras sendo arrastadas interrompeu meus pensamentos. Estão, agora, tentando retirar a tampa do caixão.   Eu sabia que eles viriam, pois estavam enganados... Ao ser retirada a tampa uma claridade intensa me cegou momentaneamente. Pude, então, ouvir claramente uma linda voz que me chamava:

– Levante-se e venha comigo.

Consegui erguer o braço direito e colocar a mão sobre meu rosto. Não acreditava no que estava vendo:

– É você, Jesus?

– Sim. Vim buscá-lo para sua Missa de Sétimo Dia.

"Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá". (João 11: 25).

Sorri e, em seguida, falei:

– Mas, eu não estou em condições de...

Antes de terminar a frase, olhei para mim mesmo. Estava iluminado, cheiroso e bem vestido, com um lindo terno branco. Ele estendeu a sua mão e, num piscar de olhos, já estávamos dentro da igreja. Foi a missa mais linda que eu já assisti, toda em minha homenagem. Pude ver, então, as pessoas que realmente gostavam de mim. Pedi perdão por tudo de errado que havia cometido em vida e Ele me perdoou. Beijei novamente minha esposa e meus filhos, abracei-os e me despedi deles para sempre. Eles não conseguiram falar sequer uma única palavra comigo; somente olhavam para mim.

Lá fora, uma luz intensa clareava a entrada da igreja, como se fosse o início de um túnel iluminado. Chegara, afinal, o momento de partir... Eu não mais sentia medo, nem saudade, nem remorso...  nada mais me prendia a este mundo. Minha consciência se desligava aos poucos e, ao caminhar junto a Ele na direção do túnel, fomos nos misturando àquela luz. Ouvi novamente um beep intermitente.

Abri os olhos. Eu estava vivo e eram exatamente 7 horas da manhã. Meu celular me avisava que era hora de me levantar e viver mais um dia. Que sonho mais real!

Isso me fez refletir muito. Afinal de contas, viver e morrer não deixam de ser um aprendizado. O medo está apenas em enfrentar a verdadeira prova... aquela da qual ninguém jamais voltou para nos dizer qual a nota que alcançou...




   
                                                    

Revisado por:  Elabora Textos


11 comentários:

  1. Olá!
    Que maldade André!!!
    Eu achava que era real, e já estava agonizando junto com a pessoa, e depois, me conformando com a minha "morte".
    O texto é detalhado e ofegante.
    Muito bem feito.
    Gostei!
    Adriana

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  2. Oi, André :)
    Muitas vezes pensei que fosse real. É um texto bem detalhado.. sempre me interesso por esse tipo de leitura :) E dificilmente encontro algum escritor nacional que escreve esse tipo de história, bem interessante ^^
    Muiiitoo bem feito :)
    Paraabéns está demais!

    Beijos:*
    Natalia.
    http://musicaselivros.blogspot.com/

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  3. Adriana e Natália:
    Vocês podem não acreditar, mas quando eu escrevi isso, também fui ficando muito sufocado, digo de uma maneira "sentimental" e imaginando todos os detalhes durante este percurso, sendo que alguns preferi não escrever...
    Tenho pena de quem é Ateu (cético em relação a afirmações sobrenaturais e a Deus), pois imagine só se a morte for assim como eu a descrevi... Quem será que vem buscá-los, já que não acreditam em nada ?

    "Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas”.
    (João 12:44-46)

    Obrigado pelos comentários !!! Bjs

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  4. Meu amigo que mensagem você nos passa através deste conto! Sim é verdade, as pessoas só se dão conta do tanto que não deram valorizaram os verdadeiros valores da vida quando aparentemente é tarde demais. Nossa porque deixei de dizer eu te amo a tanta gente que amo? Por que não vi o outro lado da moeda nas questões que me vi envolvido na vida? Por que priorizei o meu orgulho e a minha vaidade? Por que não deixei pra lá tantas questões corriqueiras e levei tudo tão a sério que magoei por tão pouco tantas pessoas? Por que neguei meu sorriso,meu abraço, meu estender de mãos aos irmãos necessitados que cruzaram o meu caminho? É por quê? E agora, como olhar nos olhos DAQUELE que tanto confiou em Mim? E agora é o chicote do remorso em minha consciência que estala me abrindo sulcos terríveis e desejo imenso de reparação, mas Ele ainda assim me ampara, proporcionando-me novas oportunidades em searas novas de trabalho, pois sempre há tempo, o Tempo é Eterno pois ao Criador pertence. Preciso dizer que teu conto fala fundo à alma de quem o lê? Parabéns beijos Luconi ps desculpe acho que me expandi demais no comentário, falo demais rsrsrsrs.......

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  5. Luconi,
    Tudo isso que você escreveu é a mais pura verdade... Que pena que o ser humano somente dá valor à água depois que a fonte seca... daí já é tarde demais...
    Obrigado pelo seu sincero comentário, adorei !
    Volte mais vezes e seja sempre bem-vinda !!!
    Bjs

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  6. André,
    Que conto maravilhoso, daqueles que nos faz refletir se o que estamos fazendo enquanto vivos vale a pena e não nos será cobrado por nós mesmo na hora de nossa morte.
    Parabéns amigo a cada dia que passa seus contos nos surpreende mais.
    Bjus
    Claudia

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  7. Cláudia,
    Que bom que gostou ! Este conto realmente é muito profundo e se analisarmos bem, temos mesmo que refletir muito sobre a nossa vida hoje, porque o amanhã talvez não haja...
    Se entre os milhares de leitores que estão acompanhando as minhas histórias, eu conseguir fazer apenas um deles mudar o seu estilo de vida ao ler esta passagem imaginária porém bem realística, já valeu por toda uma eternidade !
    Obrigado pelo comentário !
    Bjs

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  8. " Venha prestigiar o novo autor no CLUBE DOS NOVOS AUTORES;
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    Obrigada por seguir-nos!
    Evanir
    Relações Públicas
    do CLUBE DOS NOVOS AUTORES
    http://clubnovosautores.blogspot.com/

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  9. Oi Victtor,

    Ainda bem, que foi sonho, só sonho mesmo, mas foi um pouco macabro, ai se foi.

    Beijos de luz.

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  10. Fique tranquila Luz... estou mais vivo do que nunca ! Bjs

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