Lucrécio: O Temível Esqueleto Condenado...


 Certo dia, conversando com um cliente de uma cidade vizinha aqui do Sul de Minas, tomei conhecimento de um caso sobrenatural, que fora completamente “abafado” pelos familiares e moradores daquela região, mas que, realmente, não deixa de ser uma verdadeira história de terror. O Senhor Walter, meu cliente, pediu apenas que eu trocasse os nomes, inclusive o dele e que jamais citasse a região exata onde isso ocorreu. Cumprindo minha promessa, atenderei fielmente o seu pedido.

Era a história de Lucrécio...

Alzira, a mãe, no sexto mês de gestação, sentia vários chutes fortes em sua barriga durante todos os dias da semana, principalmente antes das refeições e, também, misteriosamente antes de suas rezas noturnas, que costumava fazer momentos antes de dormir. Como toda mãe, Alzira achava graça naquilo, pois era seu primeiro filho.

Logo que nasceu, ainda bebê de colo, Lucrécio fazia coisas que nenhum outro bebê fazia. Quando sua mãe aproximava o rosto para beijá-lo, ele esperava o momento certo e cuspia várias vezes nela, em seguida, dava boas gargalhadas. As pessoas que presenciavam aquela cena ficavam indignadas, revertia-lhes imediatamente o humor, mas deixavam pra lá, afinal de contas ele ainda era um bebezinho que gostava de brincar e talvez tivesse um gênio diferente.

O tempo foi passando e Lucrécio crescendo. Durante sua fase de menino, ele matava cruelmente os passarinhos que tentavam habitar os arredores de sua casa. Armava vários alçapões e gaiolas, onde ele os prendia e os deixava passando fome, aguardando somente pelo momento certo: Quando seus pais se distraíam com os serviços domésticos no quintal, ele fervia rapidamente uma panela de água no fogão a lenha e ali, naquele líquido escaldante, mergulhava ainda vivas aquelas pobres e pequenas aves indefesas. O último piado de dor daqueles pássaros fazia Lucrécio se sentir muito feliz. Ele também judiava, escondido, dos cachorros, dos porcos, das galinhas e até mesmo de seu cavalo.

Certa vez, ele retirou das varas de pesca de seu pai, vários anzóis ainda com linhas amarradas, misturou-os com carne e deu-os para seu cachorro comer. Em seguida ele puxava o cão, fazendo com que este o seguisse para onde ele bem entendesse. Assim que a hemorragia começava a aparecer, pois os anzóis penetravam o estômago do bicho, Lucrécio cortava as linhas dentro da boca do animal, dizendo aos seus pais que talvez o cachorro houvesse comido alguma coisa envenenada.

Não demorou muito para que o próprio pai fosse morto pelo filho. Ainda com quinze anos de idade, Lucrécio envenenou o pobre homem misturando veneno de rato ao leite do copo do pai, após ter apanhado por não ter ido trabalhar na roça de manhã. Sua mãe desconfiava disso, porém, jamais quis expor publicamente essa verdade. Contudo, toda vez que eles brigavam, Lucrécio era obrigado a ouvir aquilo. As palavras da mãe o machucavam muito por dentro, machucavam tanto, mas tanto, que ele “virava do avesso”, mostrando o verdadeiro monstro que era.

Toda vez que sua mãe o contrariava ou o ameaçava, Lucrécio a amarrava em seu quarto e a amordaçava. Em seguida ligava o rádio deixando o som bem alto e, com um alicate enferrujado, ele a torturava cruelmente, apertando-lhe sem dó a ponta de seu dedo mindinho, deixando toda aquela região de seu corpo roxa e necrosada. Ele ainda lhe arrancava vários fios de cabelo e batia na sola de seus pés com um grosso pano de chão molhado. Quando terminava sua sessão de tortura, fazia questão de falar bem próximo do ouvido de sua mãe que, caso ela contasse para alguém, ele iria arrancar a sua língua e dar-lhe para comer depois de trancá-la e deixá-la passar fome por uma semana. A pobre velha, aos poucos, foi ficando doente da cabeça, mas conseguiu deixar tudo escrito em um caderno.

Quanto mais cruel Lucrécio se tornava, mais magro ele ficava. Sua mãe acabou morrendo de câncer. Ele judiou da pobre mulher até mesmo na hora de sua morte, negando-lhe um último copo d’água para pôr fim a uma sede insuportável. Mas, instantes antes de morrer, aquela mulher surrada, sofrida e maltratada jogou sobre ele uma terrível maldição.  Dona Alzira, na hora de sua morte, com apenas 66 anos de idade e voz muito fraca lhe rogou o seguinte:

– Lucrécio, meu filho, sua maldade é tamanha que nem mesmo o inferno poderá te aceitar. Os vermes jamais comerão a sua carne e a terra haverá de te expulsar. Sobrarão de ti apenas coro, ossos e muita ruindade. Deus haverá de me perdoar por um dia ter parido você, seu ingrato! – disse isso e em seguida fechou seus olhos para sempre.

Como morava na roça, num lugar já bastante distante de tudo, Lucrécio levou o corpo de sua mãe para um local próximo, jogou muito querosene e ateou fogo. Os estalos e o cheiro do corpo em chamas ficaram para sempre em sua mente e em suas narinas.
O tempo passou e Lucrécio acabou ficando doente. Talvez pela solidão no meio do mato e por fumar demais, desenvolveu um tumor na garganta e morreu com 27 anos de idade.

Seus restos somente foram encontrados devido a uma nuvem formada por muitos urubus, que sobrevoavam a casa o tempo todo. O cheiro de carniça estava impregnado nas paredes daquela casa, tanto que o pessoal especializado em resgates teve de usar vestimentas especiais. Durante a limpeza, para a desinfecção do local, foi achado um caderno que revelava todas as crueldades que foram cometidas por Lucrécio. Seus familiares, que moravam distante, foram localizados para que lhes fossem entregues alguns pertences, mas todos eles se recusaram a aceitar qualquer coisa que viesse de lá.

O enterro de Lucrécio foi simbólico, pois dentro daquela casa foram encontrados somente seu chapéu, os sapatos e suas roupas, junto daqueles restos de pele, cabelo e caldo humano sobre a cama. O esqueleto de Lucrécio não estava mais ali, naquele ninho de putrefação. As autoridades suspeitaram que alguma onça ou lobo do mato houvesse entrado ali e carregado seus ossos para a mata. Procuraram várias vezes, em todos os lugares possíveis, mas nada foi achado. Atualmente, uma coisa ainda assombra vários moradores daquela região. Dizem que gritos horripilantes são ouvidos no meio da mata em determinadas noites... 

"Mããããee...mããããããee..."

Essas palavras são proferidas fervorosamente, com uma dor intensa, um gemido rouco, dolorido, que não passa nunca. Até hoje ninguém se atreve a andar durante a noite beirando aquele lugar assombrado, onde, talvez, o verdadeiro Corpo Seco tenta se esconder da Luz Divina, já que não foi aceito nem mesmo nos confins do Inferno. Lucrécio, de tanta ruindade em vida, foi condenado a vagar sobre a terra para sempre. De acordo com a Perícia, que teve acesso ao seu processo após a descoberta das anotações no caderno, seus restos mortais jamais derreteram e seu esqueleto nunca foi encontrado.

Para não prejudicar a atividade agrícola daquela região, os moradores resolveram “abafar” o fato, pois, caso contrário, ninguém iria comprar os produtos provenientes daquela terra maldita, sobre a qual o verdadeiro e temido Corpo Seco caminha, na mata, nas noites de lua cheia.


Revisado por:  Elabora Textos













* História Verídica, porém com nomes fictícios.

9 comentários:

  1. André, essa história foi um achado.
    Lucrécio era realmente um anjo mau.
    Você narra tão bem os fatos que nos dá arrepios. É, sem dúvida nenhuma, especialista em contos fantásticos por sua predileção e pelo talento na escrita.

    Parabéns pela maestria!

    Abraços!

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  2. Devo concordar com o comentário acima, você narra com maestria os fatos, dando arrepios em quem os lê e causando a sensação de incômodo que a história objetiva!
    Tive dificuldade em ler a parte dos maus-tratos aos animais, pois tenho dó e aflição com cenas de torturas! De qualquer forma, esse é o intuito da história não é?
    E é horrível pensar que é verídica!

    Parabéns, o conto foi muito bem escrito e desenvolvido!

    Beijos!

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  3. Bento, essa criatura realmente era tão má que nem o céu, nem o inferno e nem a terra o aceitaram. A lenda do corpo seco tem como fundamento as bases desta história. Obrigado mais uma vez pelo comentário e amanhã estarei por lá visitando o seu Blog !
    Um grande abraço meu amigo !

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    Aione, primeiramente quero lhe desejar boas vindas ao meu Blog !!!
    Essa história realmente nos trás arrepios...
    Como você disse, o principal objetivo dela é mostrar até que ponto chega uma maldade feita com humanos e com os animais, mas infelizmente existem pessoas que fazem esse tipo de coisa horrível e claro, aqui nesta história eu estou mostrando o que acontece com elas... Serão punidas com dor eterna e condenadas a vagar pela escuridão do mundo. Um verdadeiro corpo seco é aquele que perdeu sua alma em vida, seus sentimentos e tudo de bom que lhe restava...
    Mas no caso de Lucrécio, ele já nasceu assim, com a essência da maldade...

    É isso aí Aione ! Sempre que puder passe por aqui para acompanhar as histórias que serão sempre variadas e com leves pitadas do mundo sobrenatural... Bjs

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  4. Olá Victtor,

    Quando leio seus textos, fico de respiração sustida.
    Você é bem melhor, que Agatha Christie!
    Que monstro esse de que nos fala!
    No dia do juízo final, ele prestará contas.

    Beijos carinhosos de luz.

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  5. Calma Luz !!!
    Isso aconteceu aqui no Brasil e você está longe dele e muito segura aí em Portugal...
    Bom, segura totalmente não está né, porque aí por perto também tem vampiros... ^^V^^
    Obrigado pela comparação que fez com a autora acima, como disse, fiquei sustido (rs.rs.rs.)
    Bjs...

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  6. Uma história horripilante!
    Espero que não seja em Cons. Pena, minha cidade. rsrsrsrs

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  7. Já ouvi falar deste conto, lembro quando criança, todo mundo tinha medo de ir brincar no meio da plantação de banana que fica num bairro da minha cidade, pode ser coincidência, mas muitas passagens me fizeram lembrar de coisas que ouvi neste bairro, como matar um animal com anzóis em sua comida.

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  8. Professor, essa história me lembra muito de uma bairro aqui da minha cidade, quando criança ia na casa de minha tia num bairro aqui da cidade, e tinha muito medo de ir pro lado do bananal, por que falavam que lá aparecia o corpo seco, e muitas passagens me fizeram lembrar deste bairro, por que lá é uma zona agrícola, já ouvi dizer de pessoas que matam animais com anzóis e falam também que os familiares não gostam de falar desse assunto, e quem mora lá jura que corpo seco existe, inclusive tem gente que já foi no local anoite pra ver se algo de estranho aconteceria.

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    1. Pois é G.Guidi, essas histórias são contadas em vários cantos do nosso país e talvez até mesmo do mundo. O famoso "corpo-seco" pode ter vários nomes diferentes, mas a base da sua "sentença" é a sempre a mesma, ou seja, ele não foi aceito pela terra e continua a vagar pelas matas na escuridão da noite...
      Obrigado por visitar o Blog e deixar o seu comentário!
      Seja sempre bem vindo e até a próxima aula!

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