A Garupa Sobrenatural...


 Esta história, que vou contar agora, sempre foi contada a mim pelo meu pai, o Sr. Vicente, que inclusive esteve com minha mãe em casa há poucas semanas.  Nesse dia, saboreamos uma deliciosa pizza caseira, feita por mim, acompanhada de um bom vinho e falamos sobre esses casos. Depois da pizza, fui mostrar meus livros a eles e, novamente, meu pai contou esse caso, acontecido com seu pai.

Por ser uma história verídica, acontecida com meu avô, Joaquim Inácio, que infelizmente não cheguei a conhecer, vejo que preciso deixá-la eternizada em meus livros para que futuramente meus filhos e até seus netos, que no momento estão muito longe de chegar, possam conhecê-la. Assim, saberão das origens e das fontes das histórias escritas pelo seu tataravô André, que nessas alturas estará se sentindo muito vivo e para sempre eternizado nas páginas de seus livros antigos e, também, podendo ser visitado no cemitério de blogs da antiga Internet.

Se vocês observarem bem, notarão que minhas histórias são leves, embora tenham como base o sobrenatural. Eu tento, sempre, escrevê-las de forma instigante e inofensiva, para que possam ser lidas por qualquer pessoa, de qualquer idade. Escrevo diversas histórias e com temas variados, classificadas entre Contos Fantásticos e Contos Verídicos. Confesso que prefiro muito mais os Contos Verídicos, nada como você ler uma história sabendo que ela realmente aconteceu e que alguém passou por aquilo. O prazer da leitura adquire um aspecto muito maior, pois podemos imaginar, nos colocarmos naquela situação, criando assim um cenário real, com pessoas reais e com um desfecho real. Muito além da fábula e da ficção, cabe ao leitor acreditar ou não, sendo que isso não fará a menor diferença para quem a vivenciou ou para quem a escreveu, pois para aquele foi plena verdade e, para este, apenas um repasse da história, isentando-se do compromisso com a veracidade.

De acordo com meu pai, o meu avô Joaquim Inácio morava, naquela época, na zona rural do município de Borda da Mata (MG), mais precisamente nas proximidades do Bairro do Cervinho. Era um senhor de estatura média, que usava sempre chapéu e provavelmente tinha seus 50 e poucos anos de idade quando isso aconteceu. O Joaquim Inácio tinha uma bela égua branca de estimação, bem domesticada, mansa e que lhe servia como condução. Ele saía com ela para ir trabalhar, para ir à cidade fazer compras e também para visitar os parentes.

Naquela época ainda não tinha luz elétrica no bairro, as lamparinas abastecidas com querosene e os famosos lampiões de gás reinavam em todas as casas. Era um tempo em que muitas histórias de assombração eram contadas ao cair da noite, talvez com o objetivo de segurar mais em casa as crianças já crescidas, ou melhor, os adolescentes, que começavam a querer sair sozinhos. Mas, repetindo para que fique bem claro: este fato que contarei realmente aconteceu.

Era época da quaresma, provavelmente meados do mês de abril. Fazendo alguns cálculos e levando em conta a idade de meu avô naquela época, talvez o ano fosse 1943.

Só para efeito de registro, estou escrevendo essa história aos 23 minutos do dia 15 de setembro de 2011. Acabei de ver um vulto passar em minha sala, mas vou fingir que é efeito do sono, caso contrário, ficarei encabulado e não conseguirei terminar. Lá fora começou uma ventania muito estranha e as portas da minha casa balançaram um pouco, bem forte, mas já pararam.

Lembro-me de meu pai dizer que ele achava que naquela época alguma coisa sempre os acompanhava, pois muitas coisas misteriosas aconteciam por lá, onde eles moravam. Ele conta que sempre encontrava uma cobra cascavel dentro de casa e não sabia de onde ela aparecia. O quintal em volta era muito limpo, eles possuíam muitas galinhas e, inclusive, alguns cachorros, mas, periodicamente aparecia uma cobra misteriosamente dentro de sua casa. Certa vez ele encontrou um enorme gato preto, com olhos vermelhos, debaixo da mesa na cozinha. Tentou tocá-lo de lá, mas ele nem se mexia, continuava a olhar fixamente para meu pai.  Como existia uma espingarda de chumbinho já carregada, de jeito, ali na sala, ele pegou-a rapidamente e atirou naquele bichano que, conta meu pai, do nada desapareceu na sua frente, sob seus olhos.

Mas, voltando ao relato, era quaresma quando num determinado sábado, à tarde, meu avô foi visitar o seu compadre.  Ele montou sua égua e, pela estrada de terra, seguiu até chegar à casa do amigo, num lugar bem distante. Lá ficaram durante a tarde toda e, ao cair da noite, eles jantaram, tomaram café, fumaram seus cigarros de palha e trocaram muitas conversas.

Já bem de noite, talvez se aproximando das 23 horas, meu avô Joaquim resolveu então se levantar para ir embora. Mas o seu compadre, preocupado, disse a ele:

“Durma aqui compadre Joaquim. É muito tarde da noite para o senhor pegar estrada sozinho. É quaresma e tem assombração pelo caminho. Não convém o senhor ir. É melhor pousar aqui e de manhã o senhor vai com mais segurança...”

Mas, meu avô, muito valentão, disse:

“Olha aqui compadre, se eu encontrar alguma assombração no caminho, mesmo que seja o capeta, eu não tenho medo não, viu? Sou capaz ainda de colocá-la na minha garupa e tocar em frente..." – disse essas palavras dando boas risadas em seguida.

"Cruz credo, compadre! Bate na boca e reza o Creio em Deus Pai! Com essas coisas não presta a gente brincar nem falar” – disse o compadre do meu avô, se benzendo em seguida com o Sinal da Cruz.

"A prosa está boa, mas preciso ir. Até mais, compadre." – meu avô se despediu e, montando sua égua, seguiu pela estrada, sozinho.

Naquela noite uma lua enorme iluminava tudo em sua volta, parecia um sol, de tão forte que estava o seu clarão. Meu avô foi seguindo o seu caminho de volta, cavalgando em sua égua branca. Na metade do caminho, bem no alto de um subidão onde a lua marcava no chão até mesmo a sombra de meu avô sobre a égua, ele, então, do nada, relembra o que dissera ao seu compadre: "Se eu encontrar alguma assombração no caminho, mesmo que seja o capeta, eu não tenho medo não, viu? Sou capaz ainda de colocá-la na minha garupa e tocar em frente..."

Então, naquele exato momento algo muito pesado também montou sobre a égua, justamente na sua garupa. A égua começou a gemer e a trotar muito devagar, diminuindo bruscamente a velocidade devido àquele peso estranho e sobrenatural. Meu avô olhou para os lados e notou um par de pernas bem peludas, com cascos no lugar dos pés. Seu cabelo arrepiou de modo tão forte que ele teve a impressão que seu chapéu havia levantado da cabeça. Sua boca ficou amarga e lágrimas de medo desciam pelo seu rosto. Tentou rezar, mas nenhuma palavra saía de sua boca. Não conseguia orar nem mesmo em pensamento. Ao olhar para o chão, viu a sombra de dois homens sobre aquela égua. Um era ele, de chapéu, mas o outro provavelmente era uma coisa ruim, que prefiro não falar o nome.

Faltando ainda uma boa distância para chegar até sua propriedade, aquela pobre égua teve que carregar uma criatura horripilante em suas costas e, com certeza, ela sabia o que era aquilo. Chegando à propriedade, eles passaram primeiramente por uma porteira que se abre apenas com um empurrão. Depois havia ainda uma segunda porteira, que deveria ser aberta manualmente, pois tinha o sentido inverso da abertura, feita assim de propósito, para que os animais não entrassem no pasto que servia de quintal da casa.  Meu avô não sabe como e nem viu isso acontecer, mas quando se deu conta já estavam do lado de dentro daquele enorme quintal, todo gramado e com algumas árvores ao redor. Existia, na entrada, um pequeno córrego, bem raso mesmo, dava até para atravessá-lo a pé. Conta meu avô que quando a égua colocou as patas dianteiras naquele córrego, ele ouviu um barulho estrondoso, como de algo pesado caindo no chão. Parece que algo impediu que aquela coisa ruim atravessasse a água corrente. Meu avô, lá de fora mesmo, gritou várias vezes para minha avó:

"Maria! Maria! Apague o lampião e as lamparinas, porque eu vi assombração pelo caminho!"

Os antigos diziam e acreditavam que logo após avistar algum tipo de assombração, a pessoa que a avistou não podia ver a luz, caso contrário ela desmaiava. Deixando sua égua solta ali mesmo no quintal, onde havia um cocho de água para ela beber, meu avô entrou rapidamente em sua casa e foi diretamente para o quarto, rezar e dormir. Meu pai conta ainda que ele ficou semanas e semanas com muito medo de sair do quarto quando a noite chegava. Precisou até mesmo usar reservatórios para fazer suas necessidades fisiológicas. Aquilo que meu avô viu no caminho naquela noite, ou melhor, que ele trouxe em sua garupa, marcou para sempre a sua incredulidade. Ele jamais ousou falar ou brincar novamente com essas coisas. Sua égua também sofreu sequelas daquele medo extremo. Conta meu pai que ela ficou por 3 dias sem nem mesmo se levantar do chão. Não se alimentava nem bebia água. Ficava apenas bufando, parecia que tinha contraído alguma doença hidrofóbica. De certas coisas, jamais devemos falar e muito menos brincar. O sobrenatural existe e está bem próximo da nossa realidade...






* História Verídica.
* Garupa fica na parte posterior do cavalo, onde alguém segue montado junto com o condutor do animal.






13 comentários:

  1. André, nossos pais e avós são uma boa fonte de história. Essa é muito interessante.
    A história já boa e bem narrada, melhor ainda.
    Acho que seu avô provocou o Coisa-ruim, por isso deliberou se vingar dele.
    Dizem que lutar contra ele sem Cristo é luta vã.
    Deveras suas narrativas têm mais suspense do que terror.Lembra muito um pai contando para um filho com muito cuidado para não assustá-lo, mas pela sua simplicidade e honestidade ao contar, há muita verossimilhança.

    O mais importante não é a credibilidade dos fatos citados, mas a beleza da linguagem e da narrativa.

    Abraços!

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  2. É isso mesmo Bento, eles são verdadeiros baús de tesouros...
    Sobre o coisa-ruim, ele consegue atacar o ponto fraco das pessoas que estão desprotegidas ou distantes de Deus... Por isso mesmo que é bom agente sempre Rezar e Orar para o bom Deus nos guiar e nos proteger sempre com os seus Anjos da Guarda !

    Obrigado por comentar e um grande abraço !!!

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  3. Olá Victtor,

    Nossos avós são sábios e jóias raras.
    O meu me contava também histórias, mas de princeas e bela adormecida.
    Viu mesmo sombra passar, viu?

    Beijos de luz.
    Bom fim de semana.

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  4. Ah Luz... então é por isso que você virou Rainha dos Poemas né ? (rs.rs.rs)
    Sobre a sombra vi sim... Confesso que senti pavor... mas como disse, pode ser efeito do sono...

    Bjs

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  5. Oi nossa achei interessante a sua historia sempre os antigos tinham muitas historias sobre o sobrenatural para contar não entendo pq isso esta se acabando com o tempo, sera q as assombrações acabou ou a gente que não acredita mais nisso??? mais gostei do seu blog muito bom mesmo... vou passar aki mais vezes...

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  6. Bom dia! Bom domingo!! Acesse ao blog para conhecer o resultado! Hoje é dia de sorteio!
    Beijinhos

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  7. Conheço várias histórias fasntásticas.....mas essa me impressionou muitooooooo!!!!!!! Adorei mesmo!!!!!
    bjus sangrentos...hehe

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  8. OI VICTTOR,

    Agradeço o seu terno comentário, aqui em seu blog.
    Eu não sou rainha na poesia, não.
    Tenho sensibilidade, sensualidade e continuo a sonhar e a ser princesa de um castelo, que eu, própria, edifiquei.
    Mas, às vezes, os príncipes querem partir... SÓ compreenderá a frase se visitar meu blog.
    Boa semana.

    Beijos de princesa de luz.

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  9. É Janaína, isso também é um mistério... é uma combinação de coisas como: tecnologia, falta de tempo e muita incredulidade por parte das pessoas no mundo todo... Se por exemplo Jesus Cristo aparecesse amanhã pelas ruas da cidade, será que alguém também acreditaria nele ?
    Mas uma coisa eu prometo: Vou eternizar uma assombração de cada tipo aqui neste Blog e nos meus Livros ! Obrigado pela visita e volte sempre ! Bjs


    Marli, já fui lá... parabéns e sucesso sempre !


    Pâmela, que bom que está gostando das histórias ! fico feliz por isso ! Seja bem vinda e volte sempre também ! Bjs


    Luz, você é tudo isso e mais um pouco ! Vou lá sim, para desvendar isso... Bjs e obrigado pela visita !

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  10. Oi Victtor, estou buscando 5 autores e 5 blogueiras para participar do booktour do meu blog.
    Vc quer participar com um livro?
    Aguardo resposta.
    marlicarmen@hotmail.com

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  11. André, sabe que minha avó contava uma história parecida com essa (ela era uma mestra nessas histórias)? Só que não se via nada na garupa, apenas se ouvia o gemido do animal e o cavaleiro sentia umas mãos gélidas tocarem seu corpo. Seu conto ficou na medida certa. Parabéns!

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  12. Marli, entrarei em contato com você... Bjs


    Juarez,
    Viu só como essas coisas existem !
    Isso é um assombro... e dos gelados...
    Obrigado pela visita e pelo comentário !
    Abraço !

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  13. Bom dia Detetive Victtor,

    Passei por aqui para agradecer seus calientes comentários.
    Apaixonada, EU?
    Será, que é mesmo?
    Vai desvendar?
    Te desejo uma óptima 2ªfeira.

    Beijos de princesa e de luz.

    PS:Adoro te ver de óculos escuros. Dá um ar misterioso. E essa a intenção, né?

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