A Procissão das Almas Perdidas...


Essa é mais uma história que, quando criança, ouvi de minha mãe e resolvi deixá-la eternizada aqui. Segundo ela, em um determinado dia, há mais de 40 anos, foi convidada para passar a noite na casa de uma de suas irmãs, que tinha se mudado há pouco para uma propriedade na zona rural, distante cerca de dois quilômetros da cidade de Ouro Fino - MG, a terra do famoso Menino da Porteira.

Por motivos banais, naquela noite houve um desentendimento entre elas. Devido ao clima de constrangimento causado pela briga verbal entre as duas, minha mãe, ainda muito nova, porém com idade suficiente para tomar decisões, resolveu voltar para a cidade. Contudo, numa atitude provocadora, não aceitou ser levada de charrete em hipótese alguma. Resolveu voltar caminhando, sozinha. Essa foi a forma encontrada por ela para sair de lá o mais rápido possível e mostrar o quanto estava irritada.

O caminho de volta para a cidade era uma estrada vicinal, de terra, margeada por mata fechada. Um grande bambuzal e enormes copas de árvores formavam um verdadeiro muro verde e sinistro. Dizia-se que por aquelas bandas poderia até mesmo existir onças. Era uma noite sombria, seu relógio marcava quase meia-noite, mas minha mãe, muito teimosa, resolveu seguir assim mesmo. Contudo, rezando pelo caminho.

Quando chegou a um determinado local da estrada, começou a ouvir muitas vozes e passos de gente. Parecia que aqueles passos vinham na direção dela, por trás. Ao virar para olhar o que era aquilo, ficou tão estarrecida com a cena que seu corpo quase congelou de medo e pavor. Disse ela que viu muitas pessoas caminhando, como se fosse uma verdadeira procissão.

Arrepiada de medo, virou-se para frente e passou a andar mais rápido. Aquelas pessoas também fizeram o mesmo. Quando ela parava e olhava para trás elas também paravam. Nada diziam, apenas olhavam para ela. Minha mãe começou a rezar o Credo com muita devoção e fé e continuou a andar rapidamente, praticamente já correndo, com muito medo, até que atravessou uma pequena ponte de madeira, saindo daquela mata fechada. Surgiu, então, uma clareira onde a lua aparecia e iluminava a estrada novamente.

 Aquelas pessoas estranhas pararam ali, antes daquela ponte. Por algum motivo não a atravessaram. Contam os antigos moradores daquela zona rural, que bem antigamente mesmo, quando algumas pessoas morriam na roça, eram levadas para o hospital, na cidade, sendo carregadas em uma espécie de maca. Seus parentes, sem recursos financeiros, paravam ali naquele local para beber água. Pode ser que muitas almas tivessem resolvido não ultrapassar aquela ponte, com medo de receber na cidade o atestado de óbito que selaria seus destinos.

Seriam aquelas, almas perdidas que resolveram ficar vagando para sempre? Segundo a lenda, "A Procissão das Almas não é para ser vista pelos viventes deste mundo”.


* História Verídica.







8 comentários:

  1. Caro amigo André:

    Mais uma história fabulosa e muito bem narrada. Meu avô passou por uma situação bem parecida, na roça de Cristina/MG. Qualquer dia eu lhe conto.
    Abraços,
    JC

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  2. Boa Noite José Carlos !
    Obrigado pelo seu comentário e quero sim, ouvir essa sua história... eu adoro histórias... rs.rs.rs

    Um grande abraço meu amigo !

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  3. Oi Andre, me encantei com essa história. Sabe, que me contaram uma história do interior do meu Estado que dizem que na madrugada os mortos descem lá de cima do cemitério e vem em baixo se banhar nas águas do Rio de águas correntes pra se purificar. Só maluco pra acreditar nisso.Sua história me fez lembrar de meu pai, ele adorava contar essas história pra gente e dizia que era pura verdade. Parabéns pela história, gostei muito e volto pra ler mais.Beijos!

    Smareis

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  4. é Smareis...
    O nosso Brasil é tão imenso e tão rico em seu folclore que em cada região existe vários tipos de lendas. Algumas extrapolam e outras tem até um certo grau de fundamento, porém na maioria dos casos, elas acontecem sempre sem testemunhas. Mas é ai que está o verdadeiro mistério...
    Acho que todo mundo gosta de contar ou de conhecer histórias assim, mesmo que provoque um pouquinho de medo, ingrediente este que faz com que prestamos mais atenção aos fatos para que possamos repassá-los para alguém depois.
    Minha função neste Blog é dar vida às lendas e aos Contos ! Obrigado mais uma vez pela sua preciosa visita, volte sempre !
    Bjs

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  5. Muito boa André adorei a história. Se fosse comigo minha alma tinha ficado ali mesmo só do susto que eu teria levado rsrs.
    Bjus
    Claudia

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  6. André, quando vejo uma postagem sua já fico ansioso para lê-la, pois sei que é bem interessante.
    Esta não é uma exceção.
    É mais um causo de sua coleção fantástica.
    Deveras nossos pais nos contam muitas estórias, que, quando criança, achamos que é para nos fazer medo, mas depois percebemos a importância.

    Parabéns por mais uma pérola!

    Abraços!

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  7. Valery, imagina só o que minha mãe passou ? sozinha na estrada de terra, naquela escuridão e quando olha pra trás vê várias almas caminhando em procissão... é sinistro demais...

    Bento, é verdade, as histórias contadas pelos nossos pais são verdadeiras heranças valiosas que só damos conta quando vamos ficando mais velhos...

    * já me acostumei com você por aqui também meu amigo... agora só falta a fogueira e algumas bebidas, porque o cenário e as histórias já temos... rs.rs.rs ... Abraços !!!

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