O Sequestro de um Cadáver Infantil...



Esta história, que vou contar agora, aconteceu há mais de 55 anos em um município do estado do Paraná.

Moravam numa das casas de uma fazenda daquela região, meu avô José e sua família, composta por sua esposa, a minha avó Lázara e seus vários filhos, menores de 8 anos. Entre aquelas crianças encontrava-se minha mãe, que me revelou essa sombria passagem, presenciada em sua vida.

Eles eram trabalhadores rurais, pessoas muito pobres, que passavam o dia todo labutando na lavoura de cana. Minha avó, além de trabalhar na lavoura, periodicamente também era requisitada para fazer serviços domésticos na sede da fazenda, ou melhor, na casa do patrão, o coronel José Diogo, fazendeiro e dono de um alambique instalado naquela propriedade.

Certo dia, minha avó havia deixado todos os seus filhos sozinhos em casa, os menores sob os cuidados dos irmãos mais velhos, para ir trabalhar na casa da senhora Matilde, a esposa do coronel José Diogo. Entre essas crianças havia um menininho chamado Antônio. Toninho, como todos o chamavam, tinha apenas 1 ano e meio de idade. Era praticamente um bebê que estava começando a dar seus primeiros passinhos.

A pobreza daquela família era tamanha e, justamente naquele dia não havia nada para comer naquela casa.  Minha avó dependia das doações de leite e pães caseiros, que talvez levasse para casa no final do dia, após cumprir toda a sua jornada de serviços domésticos na casa da senhora Matilde.

Mas, aquelas crianças famintas não aguentaram esperar, dentro de casa, o dia terminar e ficaram no quintal, imaginando o que poderiam comer. Havia, ali pertinho, uma enorme mangueira, ou melhor, um pé de manga, como se dizia na região, com frutas ainda muito verdes. Não demorou muito para os irmãos mais velhos apanharem algumas mangas verdes e comerem com sal, enganando, de certa forma, a fome que já estava insuportável.

Cortaram então as mangas em pedaços e passavam-nos no sal. Os irmãos foram comendo e dando também para o irmãozinho mais novo, o Toninho. Como não tinham noção alguma, comeram em demasia e, literalmente, estufaram a barriguinha daquele pequeno menino com grandes quantidades de frutos ainda muito verdes.

O garoto teve uma indigestão severa, talvez tenha ocorrido uma Enterocolite (inflamação do intestino delgado e do cólon), que provocou fortes cólicas seguidas de diarreia e vômitos. A falta de cuidados médicos acabou levando Toninho à morte depois de dois dias.

A vida ali para eles era muito difícil naquela época. Moravam numa zona rural, distante da cidade e médico era artigo de luxo, pelo qual jamais puderam pagar.

Minha mãe conta que a tristeza era tanta que meus avós beberam o dia inteiro para poder suportar a dor da perda daquele filho ainda tão jovem, ou melhor, um bebê.

O corpo do garotinho foi velado na sala, estendido sobre um pequeno colchão de palha colocado sobre a mesa. Durante o dia, no velório, foi visitado pelos patrões de meus avós e por alguns empregados da fazenda.

Ao cair da tarde os visitantes começaram a retornar para suas casas, pois o enterro iria acontecer somente no dia seguinte. Estranhamente, conta minha mãe, apenas um homem, barbudo e de chapéu, resolveu ficar ali com eles para passar a noite. Pensaram que fosse um empregado novo da fazenda, mas depois meu avô acabou sabendo que isso ele não era, ou seja, nunca trabalhou lá e nunca ninguém o havia conhecido.

A noite foi se aproximando, o choro e a tristeza invadiram todos os cantos daquela casa. Minha avó, devido ao cansaço e aos efeitos da bebida, adormeceu em seu quarto. Junto ao garotinho defunto, ficaram na sala meu avô, que já estava cochilando e quase caindo definitivamente no sono, e aquele homem misterioso, barbudo e de chapéu, que havia aparecido por lá.

O homem não tirava o olho de cima de meu avô. Ele estava aguardando somente a hora certa para fazer o que queria. Minha mãe conta que já devia passar da meia-noite quando aquele homem notou que meu avô havia caído realmente no sono. Ele, então, se levantou imediatamente da cadeira, pegou o garoto morto pelos braços e tentou fugir com ele às pressas, desesperadamente, como se estivesse roubando uma comida.

Mas, nessa correria, ele esbarrou na perna de uma mesinha que ficava próxima da porta, arrastando-a. O barulho acabou acordando meu avô, que se levantou gritando e correndo atrás dele, querendo, é claro, o corpo do seu filho de volta. O homem acabou tropeçando na escada da entrada da sala, derrubando a criança morta. Em seguida fugiu, desesperado, para o meio da mata. Com toda aquela confusão, minha avó acordou e uma gritaria se espalhou pela casa.

– Lázara! Fecha todas as portas e janelas da casa que o lobisomem quase levou o corpo do Toninho! – gritava meu avô.

Voltando para dentro de casa com o corpo do filho, meu avô pediu para ela trancar todas as portas com as fortes trancas de ferro, acender o fogo no fogão à lenha e conservá-lo o mais forte possível, usando todas as madeiras e gravetos que ali estavam. Deixou, ainda, o soquete do pilão no jeito, pois serviria como uma arma caso o lobisomem voltasse durante a madrugada.

Com certeza a intenção daquele homem estranho não era das boas, pois, afinal de contas, o que ele poderia fazer com um cadáver infantil? Possivelmente ele era um psicopata ou, talvez, um verdadeiro lobisomem daquelas redondezas.

Segundo a Igreja Católica, o batismo, além de ser um sacramento de inclusão em Cristo, também é necessário para a Salvação. Vale ressaltar que Toninho ainda não era batizado.

Diz a lenda que os lobisomens adoram comer a carne dos pagãos...  




* História Verídica.







Sobre a Lenda do Lobisomem...



No Brasil existem muitas versões dessa lenda, variando de acordo com a região. Uma versão diz que a sétima criança em uma sequência de filhos do mesmo sexo tornar-se-á um lobisomem. Outra versão diz o mesmo de um menino nascido após uma sucessão de sete mulheres. Outra, ainda, diz que o oitavo filho se tornará a fera.
Em algumas regiões, o Lobisomem se transforma à meia noite de sexta-feira, em uma encruzilhada. Como o nome diz, é metade lobo, metade homem. Depois de transformado, sai à noite procurando sangue, matando ferozmente tudo que se move. Antes do amanhecer, ele procura a mesma encruzilhada para voltar a ser homem. Em algumas localidades diz-se que eles têm preferência por bebês não batizados. O que faz com que as famílias batizem suas crianças o mais rápido possível. Já em outras diz-se que ele se transforma se espojando onde um jumento se espojou e dizendo algumas palavras do livro de São Cipriano e assim podendo sair transformado comendo porcarias até que quase se amanheça retornando ao local em que se transformou para voltar a ser homem novamente. No interior do estado de Rondônia, o lobisomem após se transformar, tem de atravessar correndo sete cemitérios até o amanhecer para voltar a ser humano. Caso contrário ficará em forma de besta até a morte. (Wikipédia)

5 comentários:

  1. Olá André,

    Agradeço as suas bonitas palavras, que deixou em meu blog. Não mereço tanto. As aceito. Obrigada.
    O seu texto é, deveras, deslumbrante.
    Como de formação, sou Professora e de Língua Portuguesa e História, imagina o meu encantamento.
    Você, o seu texto, me prenderam de alto a baixo.
    Pobre do Toninho! Crendices ou realidades? A História se vai fazendo, assim.
    Considere-me a sua melhor leitora, a mais assídua e a mais fiel.
    Tenha um Domingo misterioso, com essência.

    Beijos nítidos de luz.

    ResponderExcluir
  2. Seus textos são mesmo surpreendentes Andre!

    Beijokas em seu coração...
    Verinha

    ResponderExcluir
  3. Gostei da história. Achei super interessante. Fiquei aqui pensando, as pessoas ali num velório, e aparece alguém ali estranho e carrega o corpo do morto. Imagine a confusão que isso não dá. Lenda do lobisome não sei se é mentira ou verdade, mas não gostaria de encontrar com nenhum bicho desse na minha frente. Deus me livre dessa coisa feia. Adorei ler tua história, e vou seguir seu blog, e convido a conhecer meu blog e seguir também se gostares. Um Abraço!

    Smareis

    ResponderExcluir
  4. Agradeço de coração a visita de vocês e os preciosos comentários !
    Adorei os seus Blogs, estou seguindo-os também e vejo que o mundo está repleto de talentos !
    A Blogosfera é realmente um oceano cheio de tesouros como já havia dito antes !
    Bjs...

    ResponderExcluir
  5. Bom dia André estou adorando os contos do blog como já deve saber estava sem internet por isso a ausência mas estou recuperando o tempo perdido.
    Que situação que a família passou heim? Tadinho do Toninho, mas fiquei com pena das crianças maiores também. Eu heim já pensou um lobisomem num velório? Que horror!!!
    Bjus
    Claudia

    ResponderExcluir