O Fantasma de Dona Zileuda




Essa é mais uma das histórias verídicas que eu fiquei sabendo recentemente.

Claro que por motivos óbvios, jamais irei revelar o seu nome verdadeiro. E se por ventura, alguém ler essa história e ligar os fatos com o incidente real, eu apenas lhe direi o seguinte: qualquer semelhança e mera coincidência...

Dona Zileuda foi uma grande amiga de uma pessoa muito querida e próxima de minha família. Não posso entrar em mais detalhes, pois isso aconteceu há alguns meses atrás e esse assunto ainda está circulando entre os seus parentes. Ela morava em outra cidade, já estava aposentada há muitos anos e vinha sempre visitar a sua amiga aqui em Ouro Fino – MG.

Com o passar do tempo, Dona Zileuda adoeceu...

Por se tratar de ser uma pessoa idosa e sozinha, ela não podia contar com ninguém, ou seja, não existia esposo e nem filhos, pois nunca se casou. Precisou então, recorrer à ajuda de seus familiares mais próximos, indo morar com ela, o seu sobrinho querido de nome Rafael, ou melhor, o Rafinha.

Rafinha já era maior de idade e logo providenciou para sua tia, um cuidador de idosos, que prestaria um bom serviço sendo pago pelo dinheiro de sua aposentadoria.

Mas aos poucos, Rafinha notou que toda aquela rotina lhe trazia muita complicação para a sua vida e foi providenciando outro lugar para a sua tia ficar, ou melhor, uma espécie de hospital-asilo, mais conhecido por abrigo de idosos.

Dona Zileuda por sua vez, jamais queria sair de lá, pois ela amava a sua casa e queria morrer ali, nem se fosse para passar os últimos dias de sua vida na cama. Mas não teve outro jeito, Rafinha estava de olho naquele seu imóvel, pois no fundo mesmo, ele queria muito alugá-lo para fortalecer a sua renda pessoal.

Passaram-se alguns meses e infelizmente, Dona Zileuda veio a falecer já estando nas dependências de um hospital-asilo. Um ano depois, quando tudo já estava nos conformes e o imóvel já herdado por Rafinha, a casa de Dona Zileuda, que tanto ela  amava em vida, foi então alugada para um grupo de Médicos recém chegados de outra cidade, montarem uma espécie de Clínica, que funcionaria normalmente em horário comercial, durante os dias da semana.

Vale lembrar que eles jamais conheceram a Dona Zileuda em vida, inclusive seus funcionários.

Numa segunda-feira de manhã, quando a recepcionista abriu a porta, se deparou com uma velha sentada em uma das cadeiras de espera, logo na sala da recepção. Ela levou um tremendo susto, pegou o seu celular imediatamente para tirar uma foto e perguntou para aquela velha: - Minha nossa! Alguém deve ter esquecido a senhora aqui dentro na última sexta-feira e trancado a Clínica... Provavelmente a senhora estava no banheiro, não estava?

A velha então olhou firmemente para ela e disse: - Moça, fique tranquila... Eu simplesmente estou na minha casa...

E em segundos, ela desapareceu num piscar de olhos. A recepcionista em estado de choque ligou imediatamente para os seus patrões e contou o que havia presenciado. Assim que eles chegaram para acalmá-la, ela tentou confirmar o fato mostrando-lhes a foto capturada em seu celular, porém, nenhuma pessoa havia saído naquela imagem. Havia somente uma cadeira vazia...

A recepcionista havia visualizado o espírito da verdadeira proprietária daquela casa, ou melhor, o fantasma de Dona Zileuda...

                              

A Lenda do Trem Fantasma



Adriano, Maurício e Gustavo, eram três amigos inseparáveis, que cresciam juntos desde a infância. No vilarejo onde eles moravam, uma estrada ferroviária passava nas proximidades, porém, já estava abandonada há muitos anos. Havia também naquele pequeno município, um senhor viúvo chamado Afonso, que se aposentou pela estrada de ferro, trabalhando mais de 30 anos de sua vida, onde no passado ele fora um excelente maquinista.

O senhor Afonso passava mais de 6 horas todos os dias, sentado no banco de uma antiga e pequena Estação de Trem, onde antigamente servia somente para embarque e desembarque de trabalhadores, ou seja, pessoas que trabalhavam numa empresa mineradora que se localizava nas redondezas daquele município.

Todos os moradores locais achavam muito estranho os hábitos do senhor Afonso e colocavam até mesmo a sua sanidade em dúvida, pois sempre que perguntavam o que ele estava fazendo ali, o velho respondia:

- Estou esperando ele voltar... Eu sei que ele vai voltar...

- Mas ele quem senhor Afonso? – Perguntavam os moradores e ele sempre respondia:

- O meu Trem, que irá trazer o meu filho de volta... E em seguida o velho deixava cair algumas lágrimas de saudades de seu filho e da sua antiga profissão. Mas o que pensar disso tudo? Se aquela estrada de ferro não funcionava mais, não tinha nenhuma locomotiva em atividade? Mas o velho sempre respondia a mesma coisa... No passado, o senhor Afonso por conta do destino havia perdido o seu único filho, que morreu tragicamente tentando saltar de sua locomotiva em funcionamento. Isso talvez tenha deixado profundas seqüelas na mente daquele velho maquinista.

Aqueles garotos Adriano, Maurício e Gustavo, após adquirirem uma certa idade de aproximadamente 8 anos, começaram a brincar em lugares mais afastados de suas casas, inclusive naquela velha Estação de Trem, onde encontravam todos os dias com o senhor Afonso. Eles ainda não sabiam da triste realidade que aquele senhor vinha carregando há muitos anos.

Em um determinado dia, os garotos então resolveram brincar com aquele velho, dizendo para ele que eles ouviram o barulho da locomotiva e que em breve ela estaria chegando ali naquela estação. Os olhos do senhor Afonso voltaram a brilhar de uma forma diferente. Ele se levantou imediatamente, retirou um pequeno pente de seu bolso e penteou rapidamente o seu cabelo para trás.

Num piscar de olhos, a cor do céu e todo o cenário em sua volta mudou e lá de longe vinha ela, a velha Maria-fumaça, apitando e fumegando como sempre, agora de encontro com o seu velho e amigo maquinista, o senhor Afonso.

- Meninos ! Vocês estão certos... o meu Trem está chegando e vem trazendo o meu filho ! Quero levá-los para um passeio !

Os garotos, encantados com toda aquela magia, nem prestaram muita atenção nos detalhes e queriam mesmo era dar uma volta naquele Trem.

Aquela Maria-fumaça, guiada por ninguém, então estaciona em frente aquela velha Estação e ele procura janela por janela, mas infelizmente não consegue encontrar o seu filho. Ele agora friamente sobe e entra na cabine. Os garotos também entram no primeiro vagão e se acomodam cada um em seu assento, onde aguardam pela janela o apito anunciando a sua partida. O trem então parte e some para sempre...

Meses depois, uma outra história se repetia naquele vilarejo. Três mães desesperadas se dirigiam todos os dias para aquela velha Estação de Trem e ali ficavam sentadas, aguardando o tempo todo.

Quando alguém lhes perguntava o que elas estavam fazendo ali, todas elas respondiam ao mesmo tempo:

- Estamos esperando eles voltarem...

E bem próximo dali, algumas crianças brincavam... Inclusive  uma delas acabava de gritar:

- Olhem, o Trem está chegando, eu acabei de escutar...



                              

O Criador de Frankensteins


Num passado distante, várias pessoas com suas crenças desejavam sobreviver ao tempo depois da morte, se transformando em verdadeiras múmias pelas várias técnicas de preservação de seus corpos. Outras já no entanto, com suas mentes profundamente estudiosas, tentavam ressuscitar a vida o mais rápido possível, juntando várias partes de membros, órgãos e troncos, refazendo assim um novo ser, totalmente misto e totalmente sombrio. Hoje vocês terão conhecimento de um caso verídico, que sempre foi mantido sobre segredo absoluto. Sua identidade como sempre será totalmente preservada, utilizando-se somente de um pseudônimo. Vocês conhecerão a história do doutor Nicodemus, um verdadeiro criador de Frankensteins...

Nicodemus era um professor de medicina que passava noites e noites devorando todos os conhecimentos da anatomia humana. Desde a época da faculdade, ele sempre foi um homem tímido, que nunca conseguiu esquecer o trote constrangedor que alguns colegas lhe passaram há décadas atrás, quando ele ainda era um calouro. Mas o doutor Nicodemus, além dos livros técnicos de medicina, também gostava muito de pesquisar sobre o lado sobrenatural das coisas, até que descobriu algo que mudaria completamente a sua forma de pensar, elevando-o para uma outra consciência totalmente sombria, fazendo-o passar de mero professor universitário, para um verdadeiro mestre da magia negra, onde nas horas vagas, ele dava andamento nos seus projetos insanos, onde misturava os conhecimentos humanos com verdadeiros absurdos realizados em seus rituais.

Filho único e herdeiro de uma verdadeira fortuna, o doutor Nicodemus trabalhava por prazer e residia sozinho em sua bela mansão, num bairro nobre de Campinas (SP),  e nos finais de semana, após pagar mensalmente a propina exigida por alguns guardas corruptos, Nicodemus conseguia acesso fácil ao setor de cadáveres da universidade, onde sempre saía de lá com pequenas partes dentro de algumas caixas, alegando sempre para os guardas que ele levava alguns equipamentos para manutenção à uma empresa terceirizada, da qual ele fazia parte.  Mas para evitar alguns problemas administrativos, esses guardas precisavam sempre desligar o sistema de segurança das câmeras, que filmavam toda a movimentação de entrada e saída deste setor. Como todos esses guardas contavam mensalmente com o seu salário extra, pagos pontualmente pelo doutor Nicodemus, e como também nunca houve suspeitas de faltar absolutamente nada naquele setor, esse costume se estendia normalmente. Mas na realidade Nicodemus não saía de lá com equipamentos e sim com verdadeiras partes humanas, principalmente aquelas que eram usadas na última aula de anatomia que era cursada todas as sextas-feiras, que geralmente sofriam alguns danos causados pelos alunos e em seguida precisavam ser cremadas. Elas eram as jóias preferidas do doutor Nicodemus.

Após realizar vários testes, envolvendo membros de cadáveres com eletricidade estática, Nicodemus foi evoluindo a sua técnica, que alimentada também pela loucura de sua crença naqueles rituais, ele conseguiu o seu primeiro feitio, ou seja, após montar uma verdadeira máquina estranha, onde ele hidratava e alimentava um braço humano, ejetando e retirando sangue humano, dele próprio, através de uma pequena bomba, ele conseguiu visualizar alguns movimentos totalmente coordenados pelos comandos de sua voz, onde ele recitava: " Abra a mão " ou " feche a mão ", e aquele braço obedecia, estendendo e abrindo todos os dedos e depois se contraindo e fechando todos eles. Ele inacreditavelmente havia conseguido trazer vida sobrenatural para um membro morto e isso era apenas o começo de sua incalculável experiência sinistra, que com o passar do tempo também iria evoluir para um novo estágio muito macabro. Nicodemus não podia contar isso para ninguém, pois além de discordar totalmente da ética, ele ainda poderia ser considerado suspeito pelos seus futuros crimes que já estava planejando, seguindo sempre os objetivos de um livro especial que ele havia encomendado por um fiel seguidor de uma crença necromântica.

O tempo passou e assim que chegaram as férias de dezembro, Nicodemus oferece uma festa de aniversário totalmente secreta em sua mansão, onde convidou somente dois alunos mais preferidos e fiéis a ele. Naquela noite, ele colocou um poderoso sonífero em suas bebidas e depois cometeu um duplo assassinato, retirando em seguida e cuidadosamente  todos os seus membros e órgãos, acondicionando-os em seu pequeno laboratório.

Horas depois ele retoma as suas experiências, remontando dois novos corpos, sendo esses, formados pelos membros e órgãos um do outro, trocando os corações, os pulmões e os genitais. O doutor Nicodemus agora se sentia quase que realizado, bastando apenas ligar a sua máquina e irrigar aqueles organismos com os seus sangues trocados. Era algo totalmente ilógico e contra todos os conhecimentos da medicina, que jamais obteriam êxito por estarem totalmente em desacordo com as leis da biologia humana, exceto a um ingrediente especial, a magia negra.

Nicodemus, com aqueles dois corpos todos suturados e em posição ereta, amarrados agora sobre uma mesa vertical, ele então aguarda a hora certa para pronunciar suas palavras secretas, que deveriam ser ditas exatamente após o terceiro raio de uma tempestade negra que estava se formando naquele instante, por uma solicitação e intervenção sobrenatural.

De posse de uma versão especial, de um livro similar ao Necronomicon, já aberto exatamente na página daquele ritual macabro, ele então ouve o estalo do terceiro raio explodir no céu e começa a recitar algumas palavras em latim. De repente, tudo começa a tremer naquele laboratório por poucos segundos, mas absolutamente nada de mais acontece.

- Energia ! Eles precisam de energia... – ele pensa alto. E com as mãos e pés encharcados de sangue, ele então puxa uma alavanca para ligar seu aparelho gerador, mas esquecendo dos conceitos básicos referente as regras da eletricidade, ele acaba sendo eletrocutado por estar servindo de condutor. Durante os momentos de sua possível morte, algo estarrecedor acontece. Os dois cadáveres, totalmente nus e muito suturados, abrem seus olhos naquele momento, absorvendo misteriosamente as energias vitais do doutor Nicodemus. E após ele se tornar um corpo carbonizado, interrompendo assim a energia daquele equipamento, os dois cadáveres se libertam de suas amarrações e com uma fome de carne incontrolável, começam a devorar um ao outro, restando no final seus esqueletos, seus cabelos e algumas partes de peles espalhadas pelo chão.

No dia seguinte, um veículo preto estacionou em frente a casa do doutor Nicodemus. Dele desceu um homem encapuzado e com uma chave mestra conseguiu abrir a porta principal daquela mansão. Encontrando o laboratório de Nicodemus, ele então recolhe aquele misterioso livro e sai imediatamente.

O sistema de vigilância da casa do doutor Nicodemus filmou tudo, porém nada foi descoberto até hoje. Este relato que me foi enviado por um remetente desconhecido, eu até posso  de forma literária compartilhar aqui com vocês, mas porém jamais poderei revelar a verdadeira identidade desse homem encapuzado, que talvez tenha escrito o verdadeiro ritual necromântico, aquele que ressuscita os mortos, transformando-os em verdadeiros monstros, que depois é devorado por eles, devido a sua própria e incontrolável fome de sabedoria oculta... 

                              

Os Advogados do Diabo

        Desidério era um espírito megalomaníaco, que mesmo após cruzar a fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos, continuou sofrendo de um infeliz transtorno psicológico, no qual ele continuava a ter suas ilusões de grandeza, de poder e de superioridade...

     Assim que ele chegou ao Umbral, uma espécie de Purgatório onde as almas precisavam passar por alguns sofrimentos para conseguir a purificação, Desidério não se conformava com aquilo. Pois onde já se viu, ele ali junto com toda aquela “gentalha”, sendo que em vida fora um renomado advogado, bem colocado na sociedade e devidamente formado em uma universidade particular conceituada. Tentou então conseguir algumas informações com os demais espíritos, até chegar ao mais corrupto deles, onde conseguiu criar uma certa amizade com Robério, trocando várias afinidades e experiências profissionais de seus passados.

      Robério alegou para Desidério que caso ele quisesse uma esfera de primeira classe, o mesmo teria que deixar por escrito uma procuração em seu nome, pois quando a presença do mesmo fosse solicitada a comparecer na diretoria do Umbral, ele então seria legalmente o seu representante. Robério claro, fora também em vida um ótimo advogado, aliás um dos melhores e convenceu facilmente Desidério que além de assinar a procuração, também deixou como garantia na averbação, a estadia definitiva de todos os seus parentes ainda vivos, ou seja, comprometendo-os após a morte, a residir ali no Umbral para sempre, caso Desidério não voltasse na data de vencimento estipulada naquele contrato.

      Na verdade, Robério era uma espécie de demônio prematuro ainda, que estava infiltrado no Umbral para conseguir enganar o maior número possível de almas perdidas e assim conseguir uma futura promoção de seu posto nas esferas espirituais inferiores. E para ele ser promovido, faltava enganar apenas mais uma alma. Mas Desidério no fundo era muito esperto e na troca de conversas acabou roubando a atenção de Robério e deixando de assinar algumas folhas naqueles documentos.

       Minutos depois Desidério consegue uma autorização para sair dali e acaba surgindo em um outro local, bem luxuoso, sofisticado e com muitas opções de lazer. O único problema ali era quando aquele ambiente sofria uma espécie de batida policial, ou melhor, uma geral dada pelas autoridades locais. Se por ventura a documentação de algumas almas estivesse em desacordo com a legislação vigente, as mesmas seriam imediatamente conduzidas para o crematório público, sem piedade alguma e sem o direito de defesa. 

      O tempo passou depressa naquela dimensão prazerosa e Desidério ao ficar sabendo que haveria uma nova batida naquele local, resolveu então procurar os seus documentos, porém, os mesmos não estavam mais com ele, ou foram roubados ou ficaram indevidamente retidos na esfera de Robério. Para chamar a atenção sobre a sua pessoa prepotente, Desidério novamente reclama daquele lugar, exigindo o mais rápido possível uma esfera melhor para a sua acomodação. Logo em seguida ele é conduzido para falar com a chefia.

      Chegando na sala da autoridade superior daquele local, Desidério não acredita no que vê. Robério havia sido promovido e agora era o chefe daquela esfera. Ele então pede para ver os documentos de Desidério que de mãos vazias não tem absolutamente nada para se identificar e esclarecer a sua estadia ali, naquela dimensão luxuosa.

      - Levem ele imediatamente para o crematório público ! – ordenou Robério.

     - Mas eu lhe deixei algumas garantias, reveja todos os documentos ! – respondeu Desidério.

      Ao rever os documentos que faziam parte daquele sistema esférico, Robério notou que não existia a assinatura de Desidério nas principais cláusulas e pelas regras sobrenaturais daquela dimensão, os dois voltaram imediatamente  para a esfera anterior de onde estavam  antes. Agora ambos compartilhavam a mesma cela espiritual e eram obrigados ainda a trabalharem juntos durante um bom tempo no departamento de processos do Fórum daquele Umbral. Afinal de contas, como já contradizia o velho ditado diabólico: “ Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de prisão... ”

( texto aguardando revisão )

Sátira é uma técnica literária ou artística que ridiculariza um determinado tema. 
O adjetivo satírico refere-se ao autor da sátira. ( Wikipédia )

                              



Nicolas e o Espírito do Natal


          Havia chegado o mês de dezembro. Uma grande nevasca atingiu a cidade de Nova Iorque. Em sua casa, Nicolas, um escritor fracassado, havia perdido mais uma oportunidade de emprego, em uma revista de quadrinhos, devido às circunstâncias em que vinha vivendo. O aluguel estava atrasado, todos os seus cartões de crédito bloqueados e sua geladeira completamente vazia. Há exatamente dez meses fora abandonado por sua mulher, que voltou a morar com os pais e levou o seu único tesouro, a filha de apenas 6 anos de idade. Por causa dos efeitos do álcool, da vida desregrada e, talvez, de algo mais, um de seus rins havia parado de funcionar. Para Nicolas, a vida agora estava completamente sem sentido e, nos últimos dias, ele só pensava em qual maneira iria utilizar para pôr um fim em sua história. Seu telefone havia sido cortado e o celular não existia mais, pois havia sido trocado por duas garrafas de vodka. Naquela noite fria, Nicolas resolve fazer uma loucura...


        O fogo da lareira de sua sala já estava no fim e o aquecedor estava inoperante devido à falta de manutenção. Lá fora, o vento cortante fazia a sensação térmica ser de -15ºC. Com as mãos trêmulas de frio, Nicolas procura em sua agenda o telefone de um agenciador do tráfico de órgãos. Após achá-lo, resolve se aventurar. 


       Saindo de sua casa, caminha aproximadamente 60 metros até chegar ao telefone público, em uma esquina de seu bairro, afastado do centro da cidade. Nicolas, então, consegue uma ligação a cobrar. Pela sua forma de falar, demonstra sinais de embriaguez e admite estar sozinho em casa. Do outro lado da linha, uma pessoa resolve praticar um ato que jamais ousou cometer. Por pura ganância, Robert, um agenciador de órgãos que fora, no passado, instrumentador cirúrgico, é tomado instantaneamente por uma força obscura e maligna, que o impulsiona a almejar algo que só de pensar já lhe proporciona uma forma de prazer indescritível. Ao desligar o telefone, Robert procurou imediatamente o seu estojo de facas, pinças e serras e seguiu para a casa de Nicolas, levando também uma enorme caixa térmica com muitos cubos de gelo em seu interior.


       Chegando ao seu destino, Robert encontra a porta da casa de Nicolas semi-aberta e ao entrar é atingido por uma machadada na cabeça que lhe ceifa a vida instantaneamente. Nicolas, então, fecha a porta, arrasta o corpo de Robert para a cozinha e coloca-o sobre a mesa. Na verdade, ele estava executando a cena de uma de suas histórias de terror, que havia escrito muitos anos atrás. Agora, a insanidade havia tomado conta da sua mente e ele já não respondia por si mesmo. Abre o estojo de Robert, que estava sobre uma mesinha ao lado, calça um par de luvas cirúrgicas e começa a abrir o tórax daquele que, ironicamente, seria o seu futuro assassino, mas agora o estava servindo com todos os órgãos absolutamente saudáveis.


      Nicolas, por lidar com muitas informações no universo literário, também bebia de muitas fontes técnicas, tendo acesso a várias bibliotecas e sites sobre anatomia humana. Ele conseguiu retirar os dois rins, o fígado e o coração de Robert, acondicionando-os corretamente na caixa térmica, sob uma temperatura correta.        Mas, afinal de contas, ao telefone Nicolas não mostrara sinais de embriaguez ? Essa resposta nós nunca saberemos, pois os segredos de uma mente insana jamais terão alguma lógica, ainda mais quando se trata de um escritor abalado psicologicamente, que confunde os limites da realidade. 


     Nicolas, aproveitando os piores momentos daquela nevasca, decide levar o corpo de Robert para um local mais afastado.        Com forças do Além, ele consegue amarrar o tronco de Robert ao pé de um pequeno poste e, rapidamente, o cobre com várias camadas de neve, escondendo completamente a sua figura humana. Minutos depois, ali estava um enorme boneco de neve envolto com um cachecol, a primeira vítima de Nicolas, um executor frio, sanguinário e completamente insano.


        Nicolas volta para casa, se apossa do carro de Robert e segue para o Bairro Chinês, onde consegue vender aqueles órgãos – que seguem rapidamente, no próximo voo, para Hong Kong –, por US$ 30.000 (trinta mil dólares). Agora, Nicolas podia colocar sua vida em ordem, acertar todas as contas atrasadas e ainda comprar um belo presente de Natal para a sua filha. Dois dias depois, próximo da semana do Natal, após chorar muito pelo que fizera e já quase se entregando à polícia, Nicolas deixou sua casa e seguiu para buscar sua esposa e filha. Mas, chegando à casa de seus sogros, ele ficou muito decepcionado com a notícia sobre o estado de saúde da sua filha. A menina precisava urgentemente de um transplante de rim. Nicolas então se desespera e segue para uma igreja próxima dali, em busca do perdão. Estava muito claro o preço que ele teria que pagar pela atrocidade cometida. 


       Encontrando o reverendo, ele suplica por uma confissão de emergência. O reverendo, que coincidentemente se chamava Robert, acolhe Nicolas em sua igreja e começa a ouvir a confissão. Durante a confissão do crime, o reverendo se revela para Nicolas, dizendo-lhe:


        – Nicolas, eu sou o Espírito do Natal, acredite! Compreendo o seu sincero arrependimento e fui incumbido de lhe dar um presente. Você será agraciado com uma ampulheta mágica. Se você conseguir cumprir sua tarefa antes do tempo, o tempo também lhe servirá, podendo retroagir para uma determinada época de sua vida, ou melhor, de sua história, no qual uma borracha divina apagará todas as suas maldades, permitindo uma história diferente e benéfica para você.


      – Sua tarefa será salvar 50 pessoas, que tentarão cometer crimes na noite de Natal nesta cidade gigantesca. Para isso, lhe darei alguns poderes mágicos, os quais lhe permitirão vencer os limites físicos. Presenteie essas pessoas com palavras boas e faça-as buscar o perdão divino. Para cada pessoa salva você terá direito a um ano no passado. Sei que não será fácil, mas, tente!


        – E se eu não conseguir salvar ninguém? – perguntou Nicolas.


       – Então nada poderei fazer por você. Contudo, se ainda quiser salvar a vida da sua filha, terá que sacrificar a sua própria vida, doando- lhe o seu rim.


       Nicolas ponderou, aceitou sua tarefa e seguiu imediatamente para a primeira casa, mas, conforme se aproximava do endereço ia ficando perplexo. Era a casa de Robert, que ele havia assassinado há alguns dias. Misteriosamente, Robert estava vivo e recebeu Nicolas em sua porta. Ele entrou e os dois se abraçaram. O perdão e o arrependimento de ambos foram tão sinceros que Nicolas nem precisou seguir para os demais destinatários. Por ter salvado Robert, Nicolas também salvou a vida de mais 4 vítimas futuras, além da sua própria. Assim, Nicolas obteve 6 anos retroativos em sua história.  Quando se deu conta, estava novamente em sua casa, em frente à lareira, preparando uma árvore de Natal junto à esposa, ainda grávida de 6 meses.  A ampulheta havia funcionado perfeitamente e o Espírito do Natal havia cumprido sua promessa, presenteando Nicolas com uma segunda chance...

                              
Revisado por:  Elabora Textos

Gisékio e a Caneta Wicca



Existem certas histórias sobrenaturais que nós, escritores de ficção, jamais deveríamos escrever ou contar para alguém.  Nós, que temos o dom da escrita, de certa forma fomos presenteados com uma “chave especial” e com ela podemos abrir um portal dimensional para o outro mundo, ao qual podemos ir e voltar, pois temos passe livre. Porém, durante a abertura desse portal, nas nossas idas e vindas, podemos sim, trazer acidentalmente algumas coisas estranhas. Contudo, somente alguns, que possuem o sistema sensorial mais evoluído, conseguem observar algumas evidências e decodificá-las.

Às vezes, com o poder da nossa imaginação, também podemos criar uma história e, misteriosamente, essa história ser vivenciada por um personagem real. Seja por motivo de amizade, admiração, amor ou, em alguns momentos, até mesmo de contrariedade. Em outras épocas isso talvez fosse considerado bruxaria ou magia negra. Mas, em tempos atuais, eu chamaria isso de mera coincidência. Afinal de contas, bruxas, vampiros, lobisomens e demônios não existem, não é mesmo?

Essa história, que vou contar agora, foi enviada para mim por uma pessoa anônima, que relatou ser um escritor, talvez, paranormal. Vou chamá-lo de Gisékio.

Gisékio tinha apenas 10 anos quando perdeu sua mãe. Foi um trauma muito grande em sua vida. Sua irmã, Rosalba, ainda bem moça, mas com inúmeros sonhos a realizar, viu tudo se desmanchar feito castelo de areia. Ela estava, agora, incumbida de cuidar da casa, do pai, Antunes e de Gisékio, o irmão caçula.

Rosalba, não aceitando aquele fardo pesado, começou a judiar do seu irmão. Negava a ele o direito de brincar, atribuía inúmeras tarefas domésticas para ele fazer e às vezes o espancava. Ela sempre dizia que estava no lugar da mãe e que a educação dele era sua responsabilidade, já que o pai trabalhava o dia todo para pôr o que comer dentro de casa.

Gisékio foi guardando muita mágoa de sua irmã. O garoto era muito inteligente e tinha certo dom para escrever. Porém, suas belas poesias, escritas nas folhas de um velho caderno, eram rasgadas e jogadas fora pela irmã, em seus “chiliques” de limpeza.

Certo dia, por perder a hora de se levantar para ir à escola, levou uma surra dolorida de Rosalba. Ela não parava mais de bater no garoto com um velho cinto de couro. Bateu tanto, mas tanto, que uma vizinha precisou interferir. Gisékio, todo ensanguentado, foi levado às pressas dali para a casa de dona Nenê. Lá chegando, o garoto recebeu todos os cuidados e implorou para que dona Nenê não contasse nada daquilo ao pai, pois sua situação poderia piorar no futuro. Imagina se sua irmã Rosalba resolvesse fugir de casa... com quem ele ficaria? E os estudos? Deixar a escola, para ele, era o mesmo que deixar de viver. Dona Nenê compreendeu as razões de seu pedido e resolveu se calar, mas lhe presenteou com um poderoso amuleto. Deu a ele uma caneta bem antiga, de pena, para que ele imaginasse e escrevesse outros destinos para as coisas, quando precisasse exteriorizar seus sentimentos de mágoa. Isso talvez pudesse lhe trazer um pouco de paz interior. Mas, ela o alertou:

– Tome cuidado com isso, Gisékio. Escreva somente coisas boas, pois é uma caneta mágica! Só não vou lhe dar a tinta, porque ela virá de seu interior... mas, isso você terá que descobrir sozinho...

Gisékio não entendeu muito bem, mas guardou aquela caneta dentro do seu colchão de palha. Ninguém sabia, mas dona Nenê era uma poderosa seguidora Wicca de uma crença politeísta. Digamos que era uma bruxa do bem, para não entrar em detalhes.

Pouco tempo depois, o garoto apanhou novamente de sua irmã e acabou sendo ferido no mesmo machucado anterior, que acabou sangrando novamente. Em seu quarto, muito chateado, Gisékio conseguiu coletar em um tubinho uma pequena quantidade de seu sangue amargurado e colocou-a no frasquinho de tinta. Para tentar se sentir melhor ou até mesmo se vingar da irmã, ele começou a escrever uma pequena estrofe, usando aquela “tinta” rubra da caneta que ele havia ganhado.

“ Rosalba, Rosalbinha
minha irmã irada
seus cabelos vão cair
e todos vão dar risada ”

Gisékio, naquele momento de raiva, conseguiu mentalizar sua irmã sem cabelos e escreveu esse destino para ela. Naquela mesma noite, quando sua irmã saiu do chuveiro alguns gritos foram ouvidos. Conforme Rosalba enxugava sua cabeça, na toalha de banho iam ficando todos os seus fios de cabelo. Por motivos desconhecidos, naquela cabeça nunca mais nasceu cabelo. Todas as pessoas, ao se depararem com o novo visual de Rosalba, davam muitas risadas. Afinal de contas, ela era uma pessoa má e seus vizinhos sabiam disso.

Gisékio então compreendeu o verdadeiro poder daquela caneta mágica. Viu seu desejo, escrito com seu sangue amargurado se concretizar, no entanto, teve que pagar um alto preço por aquilo. Ao entrar na adolescência, do mesmo modo que os cabelos de sua irmã desapareceram subitamente, Gisékio também contraiu um feitiço misterioso. A sua barba crescia, diariamente, cinco vezes mais rápido que a de qualquer outro garoto normal. Ele procurou secretamente a dona Nenê, mas ela já havia se mudado de lá há alguns anos.

O tempo passou e Gisékio cresceu. Tornou-se um excelente escritor e pesquisador do sobrenatural. Conforme me disse em seu relato, aquela caneta ele guarda até hoje, pois, às vezes, é necessário mudar alguns destinos. Porém, tudo precisa ser muito bem analisado antes, pois tudo que aqui se faz aqui também se paga.

A magia existe, mas, facilmente, conseguimos manchá-la com a tinta do nosso egoísmo...
                             
Revisado por:  Elabora Textos


A Encomenda dos Sete Homens de Preto


Essa história eu consegui de uma senhora que trabalhou durante muitos anos num hospital aqui das redondezas, no sul de Minas Gerais. Ela já se aposentou há muito tempo e hoje, além de seus afazeres domésticos, reserva uma boa parte do seu tempo para cuidar de uma capela, a qual zela com o maior carinho. Muito católica e acima de tudo idônea, ela jamais iria distorcer ou inventar algo sobre o ocorrido...

Nos idos de 1943, Sandrinha ainda era novata naquela unidade de saúde. Ajudava e obedecia fielmente a todas as ordens das irmãs enfermeiras, um grupo de religiosas que administrava aquele hospital. Todos ali trabalhavam muito o dia todo e quando ia chegando o período noturno aquelas irmãs enfermeiras já estavam exaustas. Elas residiam no hospital e, ao cair da tarde, já não viam a hora de ir para os seus aposentos, descansar. À noite, deixavam a guarda do hospital a cargo de uma moça, responsável por registrar as entradas dos pacientes que, eventualmente, surgiam durante a madrugada. Naquele tempo era assim mesmo, o paciente era acolhido e ficava no seu leito, aguardando o médico chegar. Os primeiros cuidados eram dispensados por algumas irmãs, que se revezavam no período noturno.

Justamente naquela noite, a enfermeira-chefe pediu para chamarem Sandrinha em sua casa, pois a outra recepcionista havia faltado por motivo até hoje desconhecido. Sandrinha, com apenas um mês de experiência e precisando do novo emprego, jamais poderia deixar de atender a esse pedido. Então, seguiu imediatamente para o hospital.

Lá chegando, de imediato assumiu seu posto, pois todos já haviam ido para seus aposentos, havia apenas algumas enfermeiras de plantão e, mesmo elas, estavam descansando em alguns quartos, após aquele longo dia movimentado.

Era uma sexta-feira da quaresma e o silêncio imperava naquele hospital católico. Chamar as irmãs era terminantemente proibido, exceto num caso de extrema urgência, como algum acidente com feridos graves. Caso contrário, nem pensar. Corria-se o risco de ser demitido por infringir as “regras internas”.

Sandrinha estava sozinha na recepção e já havia fechado todas as portas. Durante aquele início de madrugada ela resolve ler seu livro de romance que havia deixado em uma de suas gavetas, pois não havia nada para fazer. Ora cochilava um pouco, ora lia seu livro e ouvia, raramente, alguns latidos de cães lá fora, naquela rua deserta.

De repente, os latidos dos cães se intensificaram por causa do barulho de alguns cavalos puxando uma carruagem. Sandrinha foi acordada de seu cochilo com algumas batidas na porta. Ela havia cochilado por alguns minutos e estava, ainda, meio confusa. Levantou-se imediatamente de sua cadeira, pegou as chaves e foi abrir a porta principal. Levou um enorme susto. A cena que presenciava era assustadora: Sete homens, todos vestidos de preto estavam bem ali na frente dela, dizendo que foram pegar o corpo.

– Mas corpo de quem? – pensou ela. Ninguém havia avisado nada, não tinha nenhuma anotação sobre aquilo e todos estavam dormindo naquele momento. Mas, para não demonstrar falta de comunicação e desorganização da instituição, ela usa sua esperteza e fala:

– Sim, podem entrar! Vocês já sabem onde ele está?

– Sim, sabemos – responderam eles.

– Então entrem, por favor, e sejam breves – disse ela.

Aqueles sete homens bem trajados, carregando um caixão dourado, entraram rapidamente e foram lá para o fundo, ao pequeno necrotério. Dez minutos depois saíram de lá e, ao passarem por ela, fizeram um rápido agradecimento.

Sandrinha apenas acenou com uma das mãos e fechou a porta logo em seguida. Ficou olhando pela fresta a partida daquela carruagem, que carregava sete homens de preto e um defunto desconhecido.

No dia seguinte ela aguardou que alguém comentasse algo sobre aquilo, mas nada aconteceu, ninguém se pronunciou. Perguntou para os demais funcionários se algum paciente havia morrido há alguns dias, mas a resposta era sempre negativa. Checou várias papeletas, documentos e nada encontrou sobre o óbito. Teve medo de contar aquele fato a alguém, pois poderiam pensar que ela estava vendo coisas e isso talvez a prejudicasse naquele novo emprego. Então, até hoje manteve isso sob sigilo. Disse que contou a mim não sabe como, pois tem muita vergonha de não ter comunicado o ocorrido aos seus superiores.

Contudo, eu ainda fui além e perguntei a ela: – Dona Sandrinha, a senhora não viu mais nada de estranho naqueles homens? Tente se lembrar!

– Sim, André. Eu vi, sim, algo muito estranho... – ela fez uma pausa e continuou:

– Ao passarem por mim, percebi que aqueles sete homens tinham cascos em vez de sapatos e é por isso mesmo que eu rezo o terço todo santo dia, para nunca mais vê-los em minha vida.

Eles, com certeza, foram buscar sua encomenda, ou melhor, alguém que estava prometido para ser levado para o inferno naquela sexta-feira da quaresma...

                              
Revisado por:  Elabora Textos



Xerife Necromônius e a Rebelião dos Mortos...

        Essa história foi contada para mim por um coveiro, que já havia falecido há muitos anos. Eu o conheci numa visita ao cemitério, no Dia de Finados. Ele insistiu em me contar isso, pois fazia parte de sua história e, como era muito apegado ao seu ofício, resolveu ficar por aqui mesmo e continuar ajudando os novos moradores. Acredite se quiser, mas tenho acesso ao outro lado...

Necromônius era o xerife daquele grande cemitério. Não demorou muito tempo para ele dominar aquele território todo, impondo muito medo naquela população carcerária e cadavérica. Assim, conseguira o respeito de todos os mortos e também a quantidade de votos necessária para continuar exercendo a autoridade no seu posto. Coitado daquele prisioneiro que não votasse nele nas eleições. Necromônius tinha muitos informantes e, por isso, sabia muito bem dos votos de todos. Na verdade, ele era um espírito sombrio que ao cair da noite assumia a sua forma física, ou melhor, cadavérica. Ele trazia várias correntes enroladas pelo corpo, usava um grande chapéu cowboy, botas reforçadas e algumas armas penduradas no cinturão. Fumava o tempo todo um charuto caribenho, pois seus vícios terrestres ainda permaneciam em sua mente maligna. Dentro de suas velhas roupas rasgadas, uma carcaça podre e bichenta ainda dava forma ao seu ser. Além de tudo isso, ele tinha sempre ao seu lado os espíritos de dois cães pit bulls assassinos, que corriam atrás dos que tentavam fugir ou que ultrapassavam o limite máximo permitido, próximo do portão principal.

Seus prisioneiros nada mais eram do que aquelas almas que não obtiveram credenciais para cruzarem o túnel de luz. Eram, agora, moradores daquele cemitério. A maioria deles havia cometido crimes contra a vida humana ou animal. Uns mataram e outros feriram cruelmente as leis da carne. Agora, tinham que pagar suas dívidas ali, em suas celas. Cada um sofria as dores de sua própria decomposição. A pena era cruel: seus restos mortais eram devorados impiedosamente, fazendo-os sofrer aos poucos, até serem engolidos completamente pela misteriosa e insaciável fome da terra.

Contudo, ainda havia alguns corajosos, que sabiam da existência de uma brecha: Toda vez que a exumação de um corpo era feita, normalmente por questões judiciais, esse prisioneiro tinha a chance de escapar das garras do xerife. Mas, para isso, ele precisava voltar sem a sua cabeça, ou melhor, sem a sua consciência.

E, naquela semana, a cidade dos mortos havia recebido sete novos prisioneiros. Eles eram, na verdade, sete integrantes de uma quadrilha composta por quatorze bandidos, todos assassinos perigosos. Foram traídos por seus melhores amigos e mortos com um tiro na testa enquanto dormiam, após um grande assalto a um banco central.  Pelas características do crime, deixaram para a polícia algumas pistas daquela grande quadrilha.

Agora, todos aqueles sete corpos pertenciam à jurisdição do xerife Necromônius que, aliás, os recebeu “muito bem”.  Logo na primeira noite torturou-os com sua criação de minhocas vorazes e seus amigos tatus, que rasgavam os corpos novos daqueles que eram enterrados ali, naquelas celas provisórias, ou melhor, naquelas covas especiais, que pertencem ao Estado.

Poucos meses depois os demais bandidos foram encontrados e presos. Ao confessarem os crimes cometidos contra os seus amigos, a Justiça pediu a exumação dos corpos para que a Perícia pudesse analisar. Mas, era final de outubro, o último dia daquele mês. Então, a exumação foi marcada para o mês seguinte.

Como aquela quadrilha era muito rica e já tinha informações de onde estavam enterrados os corpos, seus familiares receberam uma ordem urgente para desenterrá-los e decapitá-los. Deveriam retirar as cabeças daquele local e sumirem com elas para sempre. Isso, provavelmente, dificultaria as investigações e evitaria um agravo em suas sentenças, já que, sem aquelas cabeças, os crimes não poderiam ser-lhes atribuídos. Essa ordem deveria ser cumprida o mais rápido possível, no máximo naqueles próximos dois dias. Porém, devido a alguns problemas, demoraram um pouco mais do que o previsto para executá-la.

Ao aproximar-se da meia-noite, o cemitério foi invadido por pessoas ligadas àquela quadrilha que, ao acharem as covas, começaram as escavações. O barulho das escavações foi, aos poucos, acordando todos os mortos prisioneiros, inclusive o xerife Necromônius. Uma providência deveria ser tomada.

        – Ora, ora, mas que dia mais propício para essa intervenção! – disse o xerife.

Estava iniciando a madrugada do dia 2 de novembro, ou melhor, o “Dia de Finados”. Nesse dia, especialmente, alguns poderes eram concedidos àqueles mortos pelas forças do mal, principalmente ali, em solo cadavérico. O xerife e seus comparsas, juntamente com os cães famintos, se posicionaram estrategicamente nos quatro cantos daquele cemitério. Uma ordem foi passada para todos os prisioneiros mortos: 

“Atenção prisioneiros: jamais deixem essas cabeças saírem daqui, do meu cemitério”

Mas, enquanto isso, aquelas covas eram todas abertas e cada cadáver era decapitado. Todas as cabeças foram colocadas dentro de sacos. Estando, já, prontos para irem embora, um assovio alto foi ouvido.

– Aonde vocês pensam que vão? – era o xerife falando. Ele e todos os mortos ali presentes estavam materializados nas suas formas cadavéricas.

Começou, então, uma grande correria dentro daquele cemitério. Os invasores tentavam fugir com os sacos que continham aquelas cabeças em suas costas. Entretanto, para todo lado que olhavam existia um morto-vivo esperando para enfrentá-los, mas, tinham deixado as suas facas e ferramentas amaldiçoadas próximo daquelas covas abertas.

Naquela confusão toda, um plano de fuga muito antigo foi colocado em prática por alguns mortos prisioneiros e passado rapidamente para os demais. Somente por estarem naquele dia especial e, usando aquelas ferramentas, eles puderam se decapitar e jogar suas cabeças para o lado de fora do cemitério, no mundo dos vivos, onde a jurisdição do xerife Necromônius não tinha efeito algum.

Enquanto o xerife e seus cães corriam atrás dos invasores, inúmeros prisioneiros puderam se libertar daquela terrível prisão, jogando seus crânios para fora daquele recinto. No dia seguinte o cemitério foi interditado, pois, misteriosamente, cento e oitenta crânios foram encontrados do lado de fora, embora somente sete covas encontravam-se violadas.

O padre foi chamado para tomar conhecimento do caso e ungiu todos os crânios com água benta, além de celebrar, naquela mesma manhã, uma santa missa em intenção de suas almas.

Aqueles crânios foram levados para um laboratório específico e, misteriosamente, sumiram de lá naquela mesma noite. O xerife não se conformava com a fuga, pois acabou perdendo cento e oitenta prisioneiros. No entanto, não deixou escapar com vida os invasores nem aquelas sete cabeças condenadas. Orgulhoso, vive dizendo a todos os demais prisioneiros que mais vale algumas cabeças cheias de carne que cento e oitenta cabeças vazias. Afinal de contas, suas minhocas vorazes somente procriam de barriga cheia, alimentadas por boas porções de consciência pesada...

                              

Revisado por:  Elabora Textos

A Máquina do Tempo...


Ali estava eu novamente, hospedado em um quarto de hotel em São Paulo, cujo nome, claro, não posso revelar. Eu já sabia que uma das linhas do Metrô cruzava o subsolo daquele local e havia até mesmo me acostumado com o zunido em determinados momentos da noite.

Misteriosamente, na passagem do último trem, aconteciam coisas estranhas, mas, no início daquela madrugada eu pude sentir uma vibração diferente.  Enquanto ele passava pude observar melhor o efeito. Notei que a televisão, as lâmpadas, o meu celular e também o notebook sofreram certa interferência com aquilo, que só acontecia uma única vez, justamente no último trajeto do dia.

Certa noite, minutos antes de o fenômeno ocorrer, precisei descer à recepção, onde tinha uma máquina de vendas, para comprar um refrigerante. Mas, justamente naquele momento, todos os elevadores estavam muito cheios, pois era um final de semana e muitos hóspedes estavam acabando de chegar. Resolvi, então, usar as escadas, pois eu estava hospedado no 1º andar e descer alguns degraus era mais rápido do que ficar aguardando os elevadores chegarem. Já tinha feito isso algumas vezes durante aquelas semanas.

Fui descendo as escadas e, bem naquele instante, novamente o trem do Metrô estava passando ali embaixo. A luz começou a piscar exatamente no momento em que eu estava abrindo a porta para adentrar o corredor da recepção.

Ao pisar no corredor, a porta se fechou atrás de mim e o ambiente se alterou completamente. Eu estava, agora, dentro de uma estação de trem, provavelmente em outro tempo, no passado. Olhei para trás tentando achar a porta, mas ela já não existia mais.

Estava tudo muito escuro naquele local de embarque, as poucas lâmpadas, penduradas na parede daquela velha estação subterrânea, estavam distantes umas das outras.

De repente um grito ecoou, vindo lá de trás. Tentei me esconder atrás de uma grande e larga coluna. Fiquei observando atentamente o local e ouvi o som de algo sendo arrastado naquele corredor. Não ousei sair dali, pois sentia muito medo.

Logo passou por mim um homem vestido de maneira completamente estranha, usando roupas de outra época. Rapidamente, ele arrastava pelos braços o corpo de outra pessoa, talvez ainda viva. Ao passar perto de mim ele parou logo adiante, farejou algo estranho no ar, olhou para os lados e continuou aquilo que estava fazendo, ou seja, tentando esconder o corpo de sua vítima.

Mas, em questão de segundos um barulho assustador se aproximava. Desta vez, uma forma de energia azulada passou pelo túnel, sobre os trilhos, deixando toda aquela cena distorcida e me transportando imediatamente para o corredor do hotel onde acabara de pisar.

Fiquei muito encabulado com aquela situação, achei até mesmo que estava ficando louco. Contudo, a partir daquela noite comecei a observar alguns detalhes misteriosos que aconteciam naquele hotel.

Certa manhã, aproveitei o horário de entrada dos funcionários e, fazendo amizade com um deles, pedi que me levasse até o terraço do edifício. Disse que era apenas uma curiosidade minha e que lhe daria uma boa gorjeta caso conseguisse me levar até lá por alguns instantes. O funcionário, que por motivos óbvios não posso citar o nome, realizou, então, o meu desejo. Lá em cima, constatei que existia uma enorme antena, bem diferente das outras, além de um equipamento com características esotéricas, instalado bem ali ao lado daquela antena, captando, talvez, outro tipo de sinal, um sinal não convencional.

Desci ao meu quarto para arrumar minhas coisas e, após tomar o café no refeitório, saí para assistir às aulas de um curso que estava frequentando.

Quando a noite chegou fui me preparando e, exatamente no mesmo horário, ousei repetir o mesmo ato que havia feito na noite anterior: desci as escadas e durante a passagem do último trem abri aquela porta. Pronto, lá estava eu novamente naquela velha estação de trem subterrânea.

Desta vez, tomado por uma grande dose de coragem, caminhei até o final de um dos corredores e acabei encontrando uma porta gigantesca. Resolvi abri-la e me deparei com uma cena aterrorizante... Era um depósito de cadáveres! Todos ali, amontoados. Existia ainda uma enorme mesa no centro daquela sala, com muitos instrumentos cirúrgicos espalhados sobre ela. No entanto, o que me deixou mais perplexo foi ver dezenas e dezenas de recipientes de vidro, contendo corações humanos mergulhados em um líquido verde, todos enfileirados naquela mesa.

De repente escutei o mesmo barulho de algo sendo arrastado, vindo lá do corredor. Fechei a porta e me escondi ali dentro para observar o que iria acontecer. Vocês não vão acreditar... Assim que aquele homem entrou notei sua semelhança com um dos ícones da História. Era impressionante, ele tinha a mesma face de Hitler!

Ali, sobre aquela mesa, ele colocava suas vítimas e lhes extraía o coração, não sei exatamente com qual finalidade, talvez para alguma pesquisa.

Mas, afinal de contas, quem era ele e o que era aquilo tudo? Infelizmente, para essas perguntas eu não obtive respostas até hoje.

Novamente presenciei aquela energia azulada passando pelas paredes do túnel e, mais uma vez, a cena se distorceu. Agora tudo estava moderno e aqueles recipientes continham pequenos embriões, de aparência não muito humana. E, o mais absurdo, era que aquele homem não tinha mais a aparência de Hitler, mas do Einstein!

Qual seria a relação entre todas essas coisas? Eu confesso que fiquei literalmente perdido em busca dessa lógica.

Sem querer, me distraí e esbarrei num objeto, que caiu no chão e ocasionou um pequeno barulho, porém, em meio àquele silêncio, chamou a atenção do homem, que veio até mim. Sem que ele percebesse, peguei o objeto do chão e guardei-o no bolso. Segundos depois, quando aquele homem se aproximou e fixou seu olhar em mim, toda aquela cena se distorceu novamente.

Por mais incrível que possa parecer, ele agora possuía a minha face. Era exatamente a minha imagem, porém bem envelhecida. Ele também ficou impressionado ao me ver, notei isso em seus olhos, no momento em que ele tentou me tocar. E, repentinamente, de novo tudo voltou ao normal. Eu estava, então, novamente na recepção do hotel, comprando o meu refrigerante.

Só consegui juntar essas lembranças fragmentadas alguns dias depois. A minha memória havia sofrido alguma forma de retardo.

Esse fenômeno não mais se repetiu. Tentei provocá-lo outras vezes, mas não consegui. Acho que deve existir um período certo, exato, para isso acontecer ou, talvez, de alguma forma eu tenha sido descoberto por alguém e banido de lá.

Será que eu havia descoberto acidentalmente a localização de um buraco de minhoca, ou seja, uma espécie de portal do tempo no subsolo daquele edifício? Ou será que aquele hotel é apenas uma fachada para esconder a máquina do tempo, já que possuía em seu terraço um equipamento tão sofisticado?

Estudando bastante o significado dessas cenas que visualizei, ou seja, os cadáveres, os corações extraídos, Hitler, os embriões, Einstein e tudo mais que compôs aquela viagem, cheguei a uma mensagem talvez profética, decodificada pela intuição da minha mente e muito provável de acontecer num futuro não muito distante, abalado por um pesadelo do passado ainda adormecido.

Eis a mensagem:

“Cuidado. A essência do mal ainda pode ser encontrada dentro de alguns corações humanos, sendo esse o principal ingrediente para a formulação de um extermínio que, provavelmente, poderá ser executado por um gênio terrorista ou homem-besta, que talvez consiga transformar a inteligência do mundo, reduzindo-a novamente à Idade da Pedra”.









   O Mestre dos Contos Fantásticos
                              

Revisado por:  Elabora Textos